O adeus do mestre

De Redação Estadão | 16 de abril de 2020 | 07:00

Um dos principais escritores da literatura brasileira, dono de um estilo seco, direto, e capaz de construir uma narrativa eficiente e afiada, Rubem Fonseca morreu na quarta-feira, 15, aos 94 anos. Ele foi vítima de um enfarte, em seu apartamento no Rio de Janeiro. Ele chegou a ser levado para o Hospital Samaritano Botafogo, mas já chegou sem vida.

Considerado um revolucionário do conto, Fonseca desenvolvia sua narrativa com fluidez precisa, adequando formas de expressão aos tipos selecionados para fazer parte de seus contos. E que tipos – personagens antológicos que moldaram gerações ao expor as feridas de uma sociedade cada vez mais corrompida pelas hipocrisias cotidianas.

Dono de uma narrativa ácida e bem-humorada, situada no Rio de Janeiro ao largo dos últimos 80 anos, Fonseca não tinha receio de empregar no texto elementos de extrema violência – componente utilizado como mecanismo desencadeador, em sua literatura, de todas as relações humanas, fossem elas humorísticas, eróticas, reflexivas ou trágicas.

Sua estreia na literatura aconteceu em 1963, com os contos de Os Prisioneiros. Gumercindo Rocha Dórea, editor da GRD, que descobriu Fonseca e o publicou pela primeira vez, contou em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Pauloque, na época, como o escritor trabalhava na Light, não queria tornar públicos seus escritos. Quem passou os originais a Dórea, sem que Fonseca soubesse, foi sua secretária. Conhecido por ser extremamente discreto e pouco afeito a aparições públicas, o autor relutou a permitir que o editor lançasse Os Prisioneiros, dando início assim à sua carreira literária.

A chegada de Rubem Fonseca ao cenário da literatura brasileira introduziu o gênero policial na época contemporânea. Em seguida, vieram A Coleira do Cão (1965), Lúcia McCartney (1969), Feliz Ano Novo (1975), O Cobrador (1979) e Agosto (1990), para ficar nos mais notáveis. O Cobrador e Feliz Ano Novo, aliás, foram censurados pela ditadura militar. O conto que dá nome ao segundo livro faz uma alusão a dois extremos de vida que propiciam um choque e, portanto, a violência, apresentando-a como componente subversivo em resposta ao sem-número de leis que, inflexíveis, tornariam impossíveis as relações humanas.

A desconfiança sempre rondou os personagens de Fonseca: o advogado não confia nos clientes, o juiz não acredita em nenhum dos dois, as amantes desconfiam do advogado que, por sua vez, aceita as evidências contra elas. Não é de se estranhar, portanto, que o crime seja o resultado natural da impossibilidade de convivência entre eles.

Entre diversos outros prêmios, Fonseca venceu cinco vezes o Jabuti de contos. Na categoria romance, ganhou apenas uma vez, com A Grande Arte (1983), mas um de seus trabalhos mais reconhecidos é Agosto, narrativa histórica que conta os eventos que culminaram no suicídio do ex-presidente do Getúlio Vargas em agosto de 1954.

Fonseca inspirou também a obra de outros autores como Patrícia Melo, Joaquim Nogueira, Tony Bellotto e, principalmente, Luiz Alfredo Garcia-Roza, um dos grandes nomes da atualidade. Em 2016, seu filho, o diretor José Henrique Fonseca, adaptou Lúcia McCartney para uma minissérie da HBO, e o personagem Mandrake também ganhou uma versão em vídeo na emissora.

“É um conto muito importante para a literatura brasileira. Quebrou uma série de paradigmas”, disse José Henrique ao jornal O Estado de S. Paulo, na ocasião do lançamento da série. “Não me lembrava, especificamente, da riqueza da escrita. Rubem trabalha muito com elipses e eu fui viajando nelas, pensando que seria muito cinematográfico transformar em imagem e som essa narrativa inquietante”, resumiu, numa frase que poderia se aplicar sem injustiça à obra completa de Rubem.

O escritor também era avesso a entrevistas e fotos, o que lhe garantia tranquilidade para passear diariamente pela praia de Copacabana sem ser incomodado. Uma de suas raras aparições públicas aconteceu em 2015, na Academia Brasileira de Letras, onde recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. “Sou um homem idiossincrático e idiossincrasias não se explicam”, disse, na ocasião. Em um discurso de pouco mais de 10 minutos, comentou sobre sua relação com a literatura, amante que foi de obras clássicas e modernas, além de romances policiais. Dispensou o púlpito e falou sobre o pequeno palco, agradecendo a presença de todos. Na saída, fez selfies.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

André Cáceres, Guilherme Sobota, Maria Fernanda Rodrigues e Ubiratan Brasil
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