O ator dos mil personagens, do teatro à TV

De Redação Estadão | 5 de maio de 2020 | 07:03

Você pode até pensar que é piada, mas o primeiro papel profissional de Flávio Migliaccio foi como cadáver na peça Julgue Você! Não parecia muito promissor, mas ele deu a volta por cima, e como. Paulistano – nasceu em 26 de agosto de 1934 -, ligou-se a um grupo de teatro na igreja do Tucuruvi. Foi aluno do lendário encenador italiano Ruggero Jacobi, que participou do movimento de renovação do teatro e do cinema paulistas no fim dos anos 1940, no TBC e na Vera Cruz. Na manhã deste domingo, 3, foi encontrado morto em seu sítio no Rio.

De acordo com a Polícia Militar, que atendeu a ocorrência, a causa da morte seria suicídio. Nascido numa família de 16 irmãos, entre eles havia a também atriz Dirce Migliaccio, já falecida. Ator de teatro, cinema e TV, Flávio Migliaccio teve uma bela carreira. Criou personagens inesquecíveis. Possuído pelo teatro, Flávio deu duro para se manter, já que a arte, no começo, era um bico. Foi balconista, mecânico. No teatro de periferia, descobriu sua veia cômica. Participou do politizado Teatro de Arena.

No cinema, teve um papel em O Grande Momento, de Roberto Santos, de 1956, e não parou mais. Com Santos, fez também A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Outros papéis destacados – em Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira, Terra em Transe, de Glauber Rocha, Pra Quem Fica Tchau! e Os Machões, de Reginaldo Faria, Boleiros 1 e 2, de Ugo Giorgetti, e mais um grande etc.

Na TV, que lhe deu popularidade em todo o País, participou de novelas e especiais, desde o Grande Teatro Tupi, no fim dos anos 1950. Depois – Shazan, Xerife e Cia, O Casarão, O Astro, Pai Herói, A Rainha da Sucata, Perigosas Peruas, A Próxima Vítima, uma extensa lista que veio até Órfãos da Terra, pelo qual foi premiado pela APCA, em 2019.

Em 2017, o ator falou ao jornal O Estado de S. Paulo sobre a estreia do espetáculo Confissões De Um Senhor De Idade. Personagem de seu texto, Flávio era visitado por Deus, que propõe um pacto: se ajudá-lo a desvendar um estranho acontecimento no céu, receberá a vida eterna como recompensa. No plano da realidade, Flávio não ambicionava essa dádiva”, brinca. “Mas se for com esses políticos que estão hoje por aqui, prefiro não”, declarou.

Assumidamente ateu, Flávio escolheu Deus para contracenar. “Num dado momento do texto, Deus indaga: como vou estabelecer um pacto com alguém que não acredita em mim? Entretanto, ele propõe e eu aceito.”

Nesse projeto repleto de questões pessoais, Flávio decidiu acumular funções – de ator, diretor, dramaturgo, cenógrafo e figurinista. “Não consigo distribuir. Não que os outros não tenham capacidade. Mas é que quero saber de tudo”, garante. O espírito empreendedor remete ao início de sua carreira, no Teatro de Arena. O ator pode ser visto atualmente em Êta, Mundo Bom, na Globo, rede na qual brilhou. Flávio deixa um filho jornalista, Marcelo Migliaccio. No imaginário, será sempre o protagonista de As Aventuras do Tio Maneco, que também dirigiu, em 1971.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
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