O diplomata que liga Hemingway a Bolsonaro

De Redação Estadão | 15 de novembro de 2020 | 16:00

O diplomata americano John Wallendahl Mowinckel sabia por que devia escrever um memorando para o então embaixador dos EUA no Brasil, William Manning Rountree, aconselhando o chefe a cobrar do governo brasileiro a punição pública dos militares que torturaram e mataram o ex-deputado federal Rubens Paiva. Era 11 de fevereiro de 1971. A existência do documento – e a de Mowinckel – liga histórias de personagens inesperados, como o presidente Jair Bolsonaro e o escritor Ernest Hemingway.

Em seu discurso da vitória, Joe Biden afirmou que os EUA devem voltar a “liderar pela força de seu exemplo e não pelo exemplo da força”. Para saber o que o democrata quis dizer basta consultar a coleção de 43 documentos entregues por Biden, então vice-presidente americano, à ex-presidente Dilma Rousseff, em junho de 2014, para serem anexados à Comissão Nacional da Verdade (CNV).

A CNV foi um dos motivos do descontentamento com o PT dos generais que sustentam Bolsonaro, que não se cansa de elogiar o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do 2.º Exército, e se recusa a qualificar como ditadura o regime dos militares. Em 2014, cuspiu na estátua de Paiva no Congresso, conforme escreveu seu filho Marcelo Rubens Paiva, no Estadão.

O documento de Mowinckel não deixa dúvidas sobre o que ocorreu: “Paiva morreu sob interrogatório por ataque cardíaco ou outras causas. Quando isso se tornar conhecido, é certo que seus amigos começarão uma violenta e emocional campanha contra o governo brasileiro por todos os meios possíveis – imprensa internacional, cartas aos senadores Fulbright, Church, Kennedy etc”.

O diplomata sabia o que estava escrevendo. O democrata James William Fulbright foi o mais longevo (de 1959 a 1974) chefe do Comitê de Relações Exteriores do Senado. Enfrentou o senador Joseph McCarthy, opôs-se ao envolvimento no Vietnã e defendia o multilateralismo. Causaria calafrios no chanceler Ernesto Araújo. Os outros – Edward Kennedy e Frank Church – lideravam investigações sobre violações dos direitos humanos e operações ilegais da CIA ao redor do mundo. Foram colegas influentes de bancada de um jovem senador eleito em 1972: Joe Biden.

No Brasil, não levaram Mowinckel a sério, ainda que fosse conhecido em Ipanema como o homem da CIA no bairro, conforme escreveu Ruy Castro. No perfil de Mowinckel em Ela é Carioca, o escritor o descreve como um espião festivo, bronzeado e de sunga, cuja principal contribuição ao Rio fora introduzir o bullshot, a combinação de suco de tomate com vodca, “ideal para bebuns com síndrome de abstinência matinal”. Ele conta que David Atlee Phillips, chefe da CIA no Brasil, desprezava os serviços de Mowinckel, pois ele viveria passando informações óbvias. Pode ser que fosse óbvio para Phillips o relato do memorando que Biden entregou à CNV e do qual o chefe da CIA fora um dos destinatários em 1971.

Melhor que fosse assim, que ninguém conhecesse o passado e os papéis de Mowinckel. Em Ipanema, o diplomata desfrutou da amizade de esquerdistas. “Todo mundo dizia que ele era da CIA. Era até piada”, diz o historiador Eduardo Schnoor, que o conheceu. Quando o embaixador americano Charles Burke Elbrick foi sequestrado, em 1969, pelo MR-8, Mowinckel e o encarregado de negócios, William Belton, foram os primeiros a se encontrar com Elbrick após a libertação do diplomata.

Talvez uma circunstância fizesse Mowinckel parecer inofensivo, um boêmio metido a 007, que falava português e promovia feijoadas. É que antes de ser diplomata, ele fora jornalista e trabalhara como correspondente para a U.S. News and World Report na Europa. Foi em 1953 que entrou no U.S. Foreign Service, indo para a United States Information Agency (Usia), a agência responsável pela Guerra Fria cultural, que não vacilava em lançar mão de operações secretas para cumprir seus objetivos.

Perfil

Em 1967, Mowinckel chegou ao Brasil para ser adido cultural da embaixada. Parecia sopa no mel viver naqueles anos no Rio para alguém que atuou 15 km atrás de Omaha Beach, em junho de 1944, na invasão da Normandia, como primeiro-tenente do OSS (Office of Strategic Services, a agência antecessora da CIA). Sua missão era apoiar a resistência francesa e impedir a chegada de reforços alemães na praia.

Nascido em Gênova, na Itália, em 1920, era filho de um conselheiro internacional da Standard Oil. Foi educado em colégios de elite nos EUA e na Suíça. Formou-se em Línguas – ele falava seis – em Princeton, em 1943, quando foi recrutado para o mundo das ações secretas, após se alistar no Corpo de Fuzileiros Navais. Ali, foi um dos 120 voluntários do Sussex Plan, que lançou agentes de paraquedas na França ocupada para preparar a invasão do dia 6, ação que lhe valeu a Bronze Star e a Croix de Guerre.

Em 20 de agosto de 1944, Mowinckel estava no Hotel Grand Veneur, em Paris, com seu chefe, o coronel David Bruce – mais tarde embaixador americano na França -, quando o escritor Ernest Hemingway apareceu. Com a ajuda de dois resistentes franceses, Hemingway conduzia amarrado um soldado alemão franzino e aterrorizado.

O historiador Antony Beevor assim descreve a cena no livro Paris After the Liberation 1944-1949: “Hemingway pediu ajuda a Mowinckel para levar o prisioneiro até seu quarto, onde ele queria interrogá-lo à vontade, enquanto beberia outra cerveja. Vou fazê-lo falar.” Uma vez lá, o escritor pediu a Mowinckel que jogasse o alemão na cama. “Tire as botas dele. Vamos queimar os dedos dele com essa vela”, disse Hemingway. Mais uma vez, Mowinckel não teve dúvidas sobre o que fazer: “Vá para o inferno”, respondeu. E o alemão acabou solto.

Ainda em Paris, o futuro diplomata participaria da captura do Hotel Crillon, o quartel-general alemão. Entrou ali com um outro oficial e desarmou 176 alemães que preferiram se entregar aos americanos do que aos franceses. Uma semana antes do fim da guerra, infiltrou-se de novo nas linhas alemãs e quase foi morto pela SS antes de cumprir sua última missão: fazer contato com as tropas soviéticas na Áustria. Foi, por isso, condecorado com a Silver Star.

Antes de chegar ao Rio, ele teve de descascar outro abacaxi. Era 1964, foi enviado para Kinshasa, na República Democrática do Congo, durante a crise dos reféns americanos em poder da guerrilha esquerdista no leste do país. Em memorando ao presidente Lyndon Johnson, Carl Roman, então chefe da Usia, descreveu-o, ao anunciar que ele assumiria as operações no país africano, como pessoa “experiente, um dos mais capazes oficiais da agência”. Mowinckel viu, assim, nascer o regime de Mobutu Sese Seko, o ditador que governou o Congo até 1997.

Amazônia

Além de ensinar drinks, o diplomata voltou a exercitar o jornalismo no Rio. Em 20 de março de 1970, chegava às bancas a edição da revista Manchete que trazia como capa a reportagem Viagem Fantástica pela Transamazônica, assinada pelo americano. Ele escreveu: “Quem viaja pela Amazônia sente-se como um Vasco da Gama do século 20, descortinando continentes perdidos e inexplorados. A Transamazônica será em breve um monumento ao espírito criador e à coragem do homem.”

Mowinckel não sabia que foi em razão das ligações com dois jovens do MR-8 – Luiz Rodolfo Viveiros de Castro e Carlos Alberto Muniz – que Rubens Paiva fora preso em 20 de janeiro de 1971 pela Aeronáutica. Antes, a FAB havia detido Cecília Viveiros de Castro (mãe de Luiz Rodolfo), no Aeroporto do Galeão, após ela chegar do Chile, onde fora visitar o filho. Paiva foi conduzido à 3.ª Zona Aérea e, de lá, ao DOI do 1.º Exército, onde morreu sob tortura. Diante do cadáver, os militares do Exército tiveram a ideia de simular uma fuga do deputado para justificar o desaparecimento, enquanto se livravam do corpo.

Mowinckel dizia desconhecer quem era Paiva antes de se informar sobre o caso. “Esse é outro exemplo da enorme irresponsabilidade das táticas militares e das trapalhadas das forças de segurança brasileiras. A diferença é que, desta vez, quando os fatos se tornarem conhecidos, não será possível varrê-los para debaixo do tapete. A confirmação de sua morte desencadeará um fedor do inferno e mais uma vez envergonhará o governo dos EUA por suas relações com o governo brasileiro”.

Por fim, sugeriu ao embaixador: “Todos os esforços devem ser feitos por você para convencer o GOB (governo brasileiro) de que algo deve ser feito para punir pelo menos alguns dos responsáveis – punidos em julgamento público. Se o GOB não fizer isso logo, é certo que os pecados do GOB vão passar para nós, causando assim mais um problema no Capitólio (Congresso americano) e na imprensa para o governo de Nixon.”

O documento entregue por Biden mostra que o diplomata defendia os interesses de seu país sem se importar com as simpatias do então presidente Richard Nixon pela ditadura de Emílio Médici. Interesses nacionais estavam acima das amizades, para o burocrata americano. Ou nas palavras de Thomas Shannon, ex-embaixador americano em Brasília, à BBC Brasil. “Bolsonaro tem um parceiro estratégico importante (EUA) onde ele está mal posicionado politicamente. É triste, porque as relações entre Brasil e EUA são importantes demais para o Brasil encontrar-se nessa posição.” O recado está dado.

Mowinckel deixou o Brasil após o memorando. Morreu em 2003. Vivia a aposentadoria em West Palm Beach, na Flórida. O jornal New York Times dedicou-lhe um pequeno obituário. Lembrou de Omaha Beach, de Hemingway e da carreira diplomática em Roma, Paris, Kinshasa e Viena. Nenhuma palavra sobre a passagem pelo Brasil, onde, a exemplo do que fizera na libertação de Paris diante de Hemingway, repudiou a tortura, servindo ao seu país como quem sabe que o exemplo individual ajuda a construir a consciência de uma nação.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Marcelo Godoy
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