O direito de enterrar

De Redação Estadão | 3 de fevereiro de 2020 | 08:00

Região da Sé, um prédio na Rua Quintino Bocaiuva, fechado ao tráfego de carros, no centro antigo de São Paulo. Um elevador que parece relíquia e o repórter salta no meio do caos, tropeçando num trilho. Estamos em pleno set de filmagem do novo Cristiano Burlan. Um dos mais talentosos autores de sua geração, Burlan sobreviveu à própria tragédia graças ao cinema. Mataram seu irmão, sua mãe. Outro talvez pegasse em armas para se vingar, ou fizesse justiça com as mãos. Ele fez filmes – Mataram Meu Irmão, Elegia de Um Crime.

Durante anos Burlan fez filmes riquíssimos esteticamente, mas quase indigentes do ponto de vista material. Filmes de orçamento zero. Agora ele realiza seu primeiro filme de ficção com dinheiro. A Mãe participou de laboratórios de desenvolvimento como o 7º Brasil CineMundi e Cinema em Desenvolvimento no 29º Cinelatino de Toulouse. Foi contemplado no Fomento ao Cinema Paulista de 2017, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, em conjunto com a Sabesp. Ganhou o Fundo Setorial do Audiovisual – Produção de Cinema 2018.

Com todas essas fontes, a produção é de baixo orçamento e ele está tendo de se adaptar. A Mãe tem muitas cenas no centro de São Paulo, mas também se passa no Jardim Romano, localizado no extremo leste de São Paulo.

O diretor, que já fez filmes em menos de uma semana, desta vez está demorando mais. Acostumado com equipamento – e equipe – mínimos, ele admite que se deslumbrou com os brinquedinhos de que agora dispõe. Foi coisa de momento. “A grande diferença é que eu estou conseguindo pagar todo mundo. De resto, enfrento neste filme o mesmo problema de sempre. A questão do cinema é sempre onde colocar a câmera.” Sentado no carrinho, que desliza sobre os trilhos, o jovem diretor de fotografia André Brandão utiliza uma Alexa – a mesma câmera que Martin Scorsese usa em O Irlandês, nas cenas que exigem campo total ao redor dos personagens, para posterior aplicação de efeitos digitais de envelhecimento (ou rejuvenescimento) dos atores. “Eu li entrevistas do Rodrigo Prieto (o diretor de fotografia de Scorsese) e achei impressionante”, observa.

A câmera avança por um corredor e chega a uma porta que descortina o interior de uma sala, onde duas mulheres conversam. São interpretadas por duas atrizes icônicas do cinema brasileiro: Helena Ignez, uma colaboradora habitual de Burlan, e Marcélia Cartaxo, com quem ele trabalha pela primeira vez. São as mães do título. Helena perdeu o filho na época da ditadura, Marcélia faz uma migrante nordestina que trabalha como camelô no Centrão. Chega em casa, na periferia, e o filho sumiu. Ela vai ao traficante da região, que lhe informa que o garoto foi morto pela polícia.

Em desespero, Maria – é seu nome – vai pedir socorro. A cena filmada mostra seu primeiro encontro na organização de mães. Antígona, na tragédia grega, quer enterrar o irmão. Aqui, são mães. “Inscrevi muitos filmes em busca de patrocínio, mas eles nunca eram selecionados. Desta vez disse à minha companheira, autora do roteiro – Ana Carolina Marino -, que íamos escrever (e inscrever) para conseguir”, conta Burlan.

Um filme menos experimental? “Não necessariamente, tem mais a ver com o tema e todas as normas burocráticas que tivemos de seguir.” O amor de mãe está na novela das 8, no texto de Manuela Dias, que o diretor José Luiz Villamarim dirige como se fosse cinema, com a cumplicidade do grande Walter Carvalho. É um tema permanente e universal. Helena – “É um filme forte, com um conflito muito interessante. Pinta uma relação de classe. Meu filho era militante, foi vítima da ditadura, o da Marcélia é pobre, caçado como marginal, e não que seja. É uma mulher humilde, trabalhadora, mas guerreira.”

E Marcélia – “Fiquei muito lisonjeada quando o Cristiano disse que escreveu o papel para mim. Sabia quem era, mas estou encantada com ele. É muito culto, muito seguro. E ouve a gente. Diretor que sabe o que quer não tem medo de conversar, de discutir a cena.” E Burlan – “Nunca tive outra opção para a Maria. Pensava sempre na humanidade, no rosto sofrido da Marcélia. Minha história, a morte de meu irmão, de minha mãe, nada disso é exceção. A impunidade, o preconceito, a desigualdade, a mídia e os governos transformam vidas em números. Que dor pode ser mais profunda que o assassinato de um filho? E quando o crime é perpetrado pelo Estado? É a dor que percorre A Mãe.”

Cristiano Burlan não se esquece de uma matéria no jornal O Estado de S. Paulo. Em 2007, ele apresentava Construção no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Era o ano de Santiago, de João Moreira Salles, e o texto no jornal relacionava os dois filmes sob o título O filho do pedreiro e o filho do banqueiro. Longe de qualquer preconceito, era um reconhecimento às qualidades de ambos. Burlan ainda demorou alguns anos, mas em 2013 venceu o É Tudo Verdade com Mataram Meu Irmão. No ano passado, de novo no festival de documentários, mostrou Elegia de Um Crime.

Cristiano veio da periferia de São Paulo. Poderia ser um desses jovens cuja história conta no novo filme. Mataram seu irmão – na realidade. A mãe também foi morta – pelo namorado, mais uma vítima a engrossar as estatísticas de feminicídio no País. O cinema virou sua ferramenta de superação – e para entender o mundo. Burlan documentarista, ficcionista, ensaísta.

A Mãe é a primeira ficção de Burlan com patrocínio, isto é, com dinheiro. O documentário Elegia de Um Crime também já teve verba. Ambos prosseguem com um rigoroso trabalho de investigação da linguagem, e da realidade. Desde 2006, com Corações Desertos, tem sido (mais de) uma década prodigiosa. Burlan filma muito, e filma bem.

A par dos documentários, construiu a Tetralogia em Preto e Branco com os filmes Sinfonia de um Homem Só (2012), Amador (2014), Hamlet (2014) e Fome (2015), premiado em Brasília. Antes do Fim, de 2017, venceu o prêmio especial do júri de cinema da APCA. Parte das personas de Jean-Claude Bernardet e Helena Ignez para imaginar uma situação extrema – ele, como paciente terminal, a chama para um duplo suicídio, que não se concretiza.

Cinema nas bordas. O ponto de partida do novo longa é ficcional. Marcélia Cartaxo não é camelô no Centro de São Paulo, não vive no Jardim Romano, mas a história de sua personagem reflete a tragédia de incontáveis mães cujos filhos são vítimas da violência do Estado. O próprio Jardim Romano é personagem. Localizado no extremo leste da cidade, o bairro possui uma efervescente vida cultural, incluindo o grupo de teatro Estopo Balaio, que já foi tema de um documentário de Burlan.

Luiz Carlos Merten
Estadao Conteudo
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