'O que vale é o legado do artista'

De Redação Estadão | 4 de maio de 2020 | 08:00

São poucas páginas, apenas 80, mas a sensação é que a permanência da trama do livro O Impostor se prolonga junto ao leitor. A trama escrita por Edgard Telles Ribeiro aparentemente é simples: um casal de mais idade viaja para Nápoles, iniciando um tour pela Itália. A cidade não é aleatória: a poucos quilômetros dali, está o Vesúvio, vulcão no qual o tio-bisavô do personagem principal (um tradutor, que narra a história) teria caído muitos anos antes. Dele, restou apenas uma foto amarelada, exibindo um homem esguio – imagem que também sumiu com o tempo. Não se sabe se a morte foi proposital ou um acidente

A visita ao local provoca uma estranha sensação no homem e a imagem do vulcão transporta a cena para o Rio de Janeiro, onde vive o tradutor que, no momento, comenta com o neto sobre uma viagem à Itália. Mas a viagem ocorreu? Ou está ocorrendo ainda? Sim, porque o leitor é informado de que o narrador recupera-se de um AVC, o que deixaria sua mente livre para embaçar a linha que separa realidade de sonho.

Edgard Telles Ribeiro foi embaixador brasileiro na Nova Zelândia – antes, serviu em Los Angeles, Nova York, Quito e Guatemala. Conheceu inúmeras paisagens, mas, em O Impostor, a principal viagem é interior, justamente o que o distingue como escritor. Afinal, ao se tornar autor, carregou uma virtude da diplomacia: o cuidado extremo com as palavras. Mas rompeu com outra ao não respeitar convenções e regras estabelecidas – exigência básica, aliás, para se trabalhar com arte. Assim, mesmo que carregado de incertezas, o leitor de O Impostor sente-se saciado. Sobre tais contradições, Ribeiro respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Acredita que lidar com a memória é tratar com o não-sentido?

Minha história se passa em vários planos e em vários tempos. Em um deles, por sinal real, um homem cai dentro do Vesúvio. Esse fato realmente aconteceu com um tio-bisavô meu, há cerca de cem anos. Nunca me esqueci do dia em que minha mãe me narrou casualmente o fato e me mostrou a fotografia da figura. Eu tinha 10 anos e perguntei (como aliás consta do livro): ‘Ele sabia que podia cair?’ Note que essa indagação, vinda da boca de uma criança, pressupõe a existência de um cenário, complexo, de suicídio. E uma das possíveis vertentes para o ‘não-sentido’ de sua pergunta (como a entendo), é a morte. Sobretudo quando, primeiro, causada por vontade própria; e, segundo, quando vislumbrada por uma criança. Não fossem essas, que outras razões me teriam levado a preservar por tantos anos esse episódio em minha memória? Lembro desse diálogo com minha mãe como se tivesse ocorrido ontem. No entanto, passaram-se mais de seis décadas (e 12 livros publicados) até que a história se deixasse escrever.

O fato de o protagonista ser um tradutor favorece o fato de ele transitar até com desenvoltura em um mundo paralelo, acreditando-se que tradutores recriam mundos?

Favorece… O curioso, porém, é que a figura do tradutor foi produto de uma conversa minha com um bom amigo, quando o manuscrito já andava pelo fim – e meu personagem era um simples professor. Nada contra professores, naturalmente, eu próprio fui um deles. Mas a metamorfose de professor a tradutor permitiu que a figura incorporasse, com muita naturalidade e riqueza, a essência mesma de seu papel: um papel de viajante itinerante, preso entre realidades paralelas. Quem frequenta profissionalmente um texto original e, na sequência, sua versão, em geral viaja mais que o leitor comum. Ainda que nem sempre por estradas exatamente iguais, já que cada língua encerra seus subentendidos, suas armadilhas, seus becos sem saída. E nem falemos do desafio maior, que é traduzir poesia, quando todas essas considerações se multiplicam e a palavra coteja a música.

A figura de um tradutor, aliás, também pode ser encarada como a de uma figura ‘impostora’ justamente por isso?

Em meu livro, pelo menos, não creio. Na medida em que a sensação da impostura não passa forçosamente pela profissão do narrador. O fio narrativo da história se processa em vários planos e vários tempos, sem deixar, por vezes, de ser linear. Nesses cenários superpostos, o narrador passa, por exemplo, boa parte de sua jornada preocupado com um ‘Outro’, talvez imaginário. A dualidade, então, não passa tanto pela sensação de impostura, mas pela questão mais premente de tentar descobrir, dos dois, quem é real – e quem, em contraponto, não é. O narrador que, por vezes, se sente, ele, como o ‘Outro’, imagina que ambos chegarão juntos ao Vesúvio, mas que apenas um dos dois retornará. Para que um viva, então, seu espelho precisará morrer. Mas quem? E, sobretudo, a que título?

A arte é mais importante que o artista?

Quando se trata de um grande artista, sem a menor dúvida. Ele já não importa. Importa o legado. Mesmo porque, muitas vezes, o grande artista é também uma pessoa complicada, quando não insuportável ou destrutiva no plano pessoal. (E se for um ser estupendo, com vocação de arcanjo, também não faltará quem, cedo ou tarde, boceje ao pensar nele.) Sem citar exemplos, que acabam empobrecendo esse gênero de conversa, ao grande artista tudo deveríamos perdoar. Desde que sua arte faça de nós seres melhores.

O livro deixa mais perguntas que respostas, mas, mesmo assim, o leitor parece satisfeito.

Diria, sem muito medo de errar, que as respostas, como as certezas, cansam. (Como essa também, quem sabe…?) Porque, dado o excesso e os equívocos de que se revestem hoje, já não satisfazem. Se o mundo não estivesse a perigo, em decorrência da estupidez de nossas lideranças, viveríamos a grande era das perguntas. Mesmo porque as respostas que tivemos até aqui, para todos nossos males, dos econômicos aos sociais, dos políticos aos ambientais, se revelam tremendamente patéticas. E nos saturam. Depois da invenção da internet, então… Daí que, em meu caso, abrir espaço para perguntas pode levar o leitor a permanecer no livro.

O Vesúvio é muito simbólico no romance – supõe-se que, quanto mais tempo ele permanecer adormecido, pior será a próxima erupção. Teria o narrador sofrido uma grande erupção?

Sim, ele mesmo confessa que também “caiu em um vulcão” ao sofrer seu AVC e regressar 20 dias depois. Ora, para regressar, só mesmo uma erupção. Meu personagem é “expelido” de seu AVC. Tanto que, à certa altura, ele diz: ‘Sobrevivi. Chamuscado, mas sobrevivi’.

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