Olhar infantil para a guerra

De Redação Estadão | 17 de novembro de 2020 | 08:33

Por volta de 2000, as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, tinham um mínimo de 6 mil e um máximo de 16 mil integrantes, parte deles – entre 20% e 30% – recrutas com menos de 18 anos. Alejandro Landes inspirou-se nessa verdadeira questão colombiana para realizar seu longa Monos, que estreou na semana passada. Monos tanto pode referir-se a macacos como a pessoas isoladas, solitárias. A definição pode parecer estranha aplicada a um filme sobre um grupo. O treinamento militar de uma garotada que mantém em cativeiro uma norte-americana chamada simplesmente de “Doutora”. Os guerrilheiros têm codinomes – Rambo, Smurf, Pé Grande, Boom-Boom, Lobo.

“Existem muitos filmes sobre soldados crianças e a maioria tende a ficar no social. Aquelas coisas das pobres crianças, que perderam a infância, etc. Mas eu queria fazer outra coisa, muito mais complexa. Ver a guerra pelos olhos dessa garotada que recebe treinamento. Tornam-se precocemente adultos, mas sem deixar de ser crianças. As Farc se anunciam como um Exército revolucionário, mas um dos pontos do filme sempre foi não realçar a trama ideológica. Embora estejamos na Colômbia, o país não é identificado, nem a organização a que pertencem. Isso me levou a uma escolha. Trabalhar estilisticamente as questões da violência e do treinamento militar.”

E Landes prossegue: “Não queria gastar três ou quatro anos da minha vida contando a mesma velha história da infância roubada. Fiz um filme de adolescentes entre eles. Hollywood faz muito esse tipo de filme. O bullying, a primeira noite. Eu tirei os meus jovens da escola e os coloquei num outro contexto de aprendizado – na natureza selvagem”. Landes conta que fez uma extensa pesquisa para chegar aos seus atores. “Procurei em escolas, quartéis. Busquei atores naturais. Selecionamos 15, que passaram a viver coletivamente, nas condições dos próprios personagens. Foi um pouco cruel, tenho de admitir, mas desses 15 selecionei oito, e foram os que fizeram o filme.”

Monos circulou por festivais internacionais. Quando chegou à Berlinale, já havia um forte tititi sobre o tema, e a realização. O repórter lembra Stanley Kubrick, o treinamento dos recrutas de Nascido para Matar. Aquele que não aguenta a pressão do instrutor e termina por matar-se. Landes reflete: “O nosso treinamento na tela tem tudo a ver com cinema. É uma evocação/recriação de muitos filmes que vi e me marcaram. Não foi só Kubrick. Ser jovem e estar no alto da montanha, tocando as nuvens, conscientes da própria fisicalidade, molda essa juventude. Pode parecer presunção da minha parte, mas é um filme assombrado pelas minhas memórias de cinéfilo. Não me refiro a cenas, em particular, mas a um tom. Existem ecos de (Francis Ford) Coppola, Apocalypse Now, das aventuras amazônicas de Werner Herzog, Aguirre e Fitzcarraldo. A ideia era levar esses jovens ao limite. Na realidade, muitos deles se juntaram às Farc como voluntários, porque acreditavam que seria melhor para eles, ou porque acreditavam na causa”.

O diretor teve uma influência mais secreta, a do russo Elem Klimov e seu extraordinário Vá e Veja, a 2ª Guerra vista pelos olhos de um garoto, quando os nazistas destroem sua aldeia em Belarus. Percorre Landes esse sentimento de que a violência é parte do cotidiano, impregna a vida de todos. Há um episódio decisivo, em torno da vaca que fornece o leite para todos. O rígido treinamento torna-se alucinatório, quase surreal e o resultado é o caos. “Filmar na floresta foi uma experiência visceral. A natureza selvagem dos monos é realçada pela paisagem, e o filme contrapõe as guerras da realidade às guerras do cinema.
Por que a guerra é tão atraente como dramaturgia? Porque ela nos revela. A propósito, é horrível isso que está se passando no Brasil, na Amazônia, no Pantanal. Os olhos de todo o mundo estão voltados para a região. Sigo o Klimov, a guerra e seu horror vistos pelos olhos da juventude.”

Na Colômbia, Monos registrou grande sucesso de público e crítica. “Não tinha muita certeza de como o filme seria recebido, mas superou a expectativa mais otimista.”

Ele conversa com o Estadão de Los Angeles, por telefone. “Estou escrevendo um novo filme, que devo fazer com a participação de capital daqui. Monos foi feito na guerrilha, com pouquíssimo dinheiro. A gente conseguia algum para avançar cada etapa. Foi assim que terminei endividado. (Risos) Agora que tenho dinheiro veio a pandemia. Por um lado, o isolamento me favorece na escrita e aperfeiçoamento do roteiro. Mas é horrível ver o que está ocorrendo no mundo, o que ocorre aqui. E ainda houve a eleição. Achava a violência do meu filme surreal, mas surreal é o que ocorre na América com (Donald) Trump.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
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