'Plano de vacinas de Trump é batata quente para Biden', diz cientista

De Redação Estadão | 13 de dezembro de 2020 | 16:10

O plano de distribuição de vacinas elaborado pelo governo de Donald Trump é insuficiente para imunizar a população americana e será uma “batata quente” deixada de herança para a equipe de Joe Biden. A avaliação é de Luciana Borio, que integra a equipe de 13 especialistas que orientam o democrata sobre combate à pandemia. Segundo ela, os Estados não receberam recursos financeiros e logísticos para as etapas de vacinação, que acontecerão ano que vem. Especialista em biodefesa, Luciana é brasileira, mas dedicou a vida profissional ao trabalho nos EUA, com cargos durante as presidências de George W. Bush, Barack Obama, além de Trump.

Como foi o convite para o time de transição de Biden? Já trabalhou com ele antes?

Eu trabalhava na FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA) quando ele era vice-presidente. Na época, ele teve mais interesse na área de oncologia (o filho mais velho de Biden, Beau, morreu em decorrência de um câncer no cérebro, em 2015) e lançou o Câncer Moonshot (projeto para acelerar pesquisas sobre câncer e popularizar tratamentos). A FDA esteve muito envolvida nisso, mas não era minha área. Eu trabalhava com infectologia e doenças emergentes, não trabalhei com ele antes. Eu recebi o convite para participar da transição e acredito que esse não é um trabalho político, é um dever cívico.

Biden disse que a obstrução da transição por parte do governo Trump coloca em risco o cronograma de vacinação nos EUA. Atualmente, o diálogo entre as duas equipes é satisfatório?

Está melhorando, mas não é perfeito. É muito difícil ter uma transição perfeita quando o presidente continua nos tribunais e não aceita a derrota. Quando houve a transição de Obama para Trump, eu estava no governo. Eu participei do outro lado, na época, e nós estendemos o tapete vermelho ao time de Trump, porque era do interesse do país.

Qual será o maior desafio na distribuição e aplicação da vacina nos EUA, durante a transição de governo?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a vacina é uma vitória enorme para a ciência. É fantástico termos duas vacinas que demonstraram que são seguras e efetivas nos estudos clínicos. As duas vacinas iniciais são difíceis para qualquer um. Difíceis de fabricar em grandes quantidades e de distribuir. A da Pfizer tem mais de uma dose em cada frasco. Quando cada frasco tem uma só dose, é muito mais fácil de administrar. Há dificuldades logísticas. Mas a grande diferença das duas é que o governo Trump decidiu que deixaria a responsabilidade da distribuição para os governos estaduais. E os Estados não receberam recursos suficientes, nem financeiros nem logísticos, para poder levar isso adiante. Vai ser uma batata quente que vamos herdar, porque as primeiras doses, de dezembro e janeiro, são em número limitado. Estamos falando de, no máximo, 20 milhões de doses. Então, nessa fase, tudo bem. Mas o que vai acontecer depois?

Qual o risco de ter uma distribuição de vacina pulverizada e desigual entre os Estados americanos? E entre os países?

O governo Biden-Harris tem foco muito grande nos valores de igualdade e justiça. Eles não vão parar depois de enviar o lote para cada Estado com base no tamanho da população. Não irão simplesmente lavar as mãos. Eles desejam ter certeza de que a vacina está atingindo a população que foi afetada desproporcionalmente pela pandemia.

Na nossa última entrevista, a senhora afirmou que os EUA tiraram o foco da preparação contra epidemias nos últimos três anos e a falta de planejamento atrapalhou na resposta à covid. Como está o planejamento para obter as vacinas agora?

A vitória atual foi uma grande parceria entre setor público e privado. Falamos que as vacinas foram desenvolvidas em meses, mas na verdade elas estão sendo desenvolvidas há anos com recurso de pesquisa para área biomédica. É importantíssimo continuar com esse tipo de investimento em biomedicina.

A senhora tem acompanhado a discussão sobre a vacina contra covid no Brasil? Poderia avaliar como o País está posicionado?

Não tenho detalhes suficientes para poder opinar. O que posso dizer é que o Brasil tem sido um bom parceiro em termos de participação nos estudos clínicos das vacinas.

O aval da FDA, feito de maneira independente, ajuda a chancelar a confiança da vacina nos EUA e em outros lugares do mundo?

Tenho muita confiança na FDA. Eu tiro o chapéu para o time de vacina da FDA e fico cada vez mais orgulhosa deles. Penso na pressão que sofreram, mas eles insistiram em fazer o processo de maneira correta, o que vai ser muito importante para ter a confiança do público.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Beatriz Bulla, correspondente
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