Poeta da luz

De Redação Estadão | 22 de dezembro de 2019 | 07:00

Morto na última terça-feira, 17, aos 93 anos, em decorrência de uma infecção renal, o fotógrafo brasileiro de origem portuguesa Fernando Lemos é imediatamente associado a um autorretrato literalmente explosivo, feito em 1949, que mostra o artista em meio a uma nuvem da qual emerge uma explosão de objetos como a carta do enforcado do tarô, a lâmina de uma faca e uma lâmpada. Com 23 anos, na época, Lemos era o mais novo representante do movimento surrealista em sua cidade natal, Lisboa, passagem que introduz o visitante da exposição Mais a Mais ou Menos (até 26 de janeiro, no Sesc Bom Retiro) ao universo multifacetado do fotógrafo, que também foi poeta, desenhista, pintor, designer e artista gráfico.

Em 86 obras espalhadas pela mostra, que tem como curadora a arquiteta e fotógrafa Rosely Nakagawa, é possível ter uma visão quase completa desse intelectual festejado por amigos poetas, entre eles Jorge de Sena, Hilda Hilst e Sophia de Mello Breyner, além de Manuel Bandeira, autor do texto de apresentação de sua primeira exposição no Brasil, em 1953, no Museu de Arte Moderna do Rio, quando aqui fixou residência.

Vindo de uma experiência traumática durante a ditadura salazarista, perseguido pela temível Pide, a polícia política de Salazar, Lemos mudou-se para São Paulo logo depois da exposição no MAM, integrando-se tão bem à cidade que logo participou da montagem da histórica exposição do 4.º Centenário, representando Portugal, no mesmo ano (1954), na segunda edição da Bienal, da qual se tornaria habitué – ele ganhou o prêmio de melhor desenhista na quarta, em 1957, recebeu outro prêmio (Aquisição) na quinta edição (1959) e ganhou sala especial na oitava (1965).

Como se não fosse suficiente, ainda nos anos 1960 se aventurou no cinema, assinando a direção de fotografia do único longa realizado pelo diretor teatral Antunes Filho (1929-2019), Compasso de Espera (1969), que teve, de fato, de esperar quatro anos para ser liberado pelo serviço de Censura da ditadura militar – que não gostou da denúncia de racismo e do impossível trânsito interclassista na sociedade brasileira (o filme trata do relacionamento de um negro de origem pobre que se relaciona com uma branca de família aristocrática).

Discriminação, aliás, era uma palavra que Lemos conhecia bem. Criança pobre, vítima da poliomielite, acompanhava o pai marceneiro quando ia instalar móveis em casas de famílias lisboetas da classe média. Exemplo de superação, começou a trabalhar, ainda adolescente, numa litografia. Mais tarde criou desenhos de rótulos para uma agência de publicidade e, em 1949, comprou uma câmera Flexaret e virou retratista – de parentes e amigos, passando a experimentar processos gráficos e com ele construindo suas primeiras imagens surrealistas (há fotos dessa época na mostra do Sesc Bom Retiro), que transitam entre o desenho e a fotografia, evocando o húngaro Kertész e outros mestres.

Lemos foi ilustrador do Suplemento Literário do Estado nos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, ele que escapara do salazarismo em 1953. Força de hábito, ele participou de campanhas, protestos, fez parte de associações e redigiu manifestos, além de ter dado aulas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Como poeta, ganhou a atenção do escritor contemporâneo português Valter Hugo Mãe, que coordenou este ano uma nova edição dos poemas do artista com base em Teclado Universal, seu livro de 1953. Suas fotos surrealistas foram redescobertas em 1994 por Jorge Molder e expostas na Fundação Calouste Gulbenkian, no Centro de Fotografia do Porto e em Paris.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Antonio Gonçalves Filho
Estadao Conteudo
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