'Populismo não define Trump e Bolsonaro', diz filósofo

De Redação Estadão | 21 de junho de 2020 | 08:30

Acabar com a legitimidade da oposição, elaborar um discurso de vítima do sistema, eleger culpados para problemas estruturais e criticar o intelectualismo: a fórmula é a mesma, mas se repete em países tão distintos quanto Índia, Hungria, Polônia, EUA e Brasil. A avaliação é do filósofo Jason Stanley, autor de Como Funciona o Fascismo – A Política do ‘Nós e Eles’, para quem o termo populista não serve para designar o comportamento de líderes como Narendra Modi, premiê indiano, e os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Estudos mostram que muitas pessoas não confiam mais na democracia. Como restaurar a confiança?

Para que a democracia seja protegida, os jornalistas devem ser capazes de fazer seu trabalho sem assédio de políticos. Os sistemas públicos de educação devem ser fortes e estar disponíveis para todos, assim os cidadãos podem participar da formação das políticas pelas quais são governados.

Onde a democracia falha?

Deve haver um caminho visível para reduzir a desigualdade entre os cidadãos para que o ideal de igualdade política democrática não seja visto como vazio e hipócrita. A democracia promete liberdade aos cidadãos, mas quando eles são esmagados por dívidas e trabalho sem fim, sem esperança de que seus filhos terão uma vida mais digna, eles podem ser manipulados por demagogos que jogam a culpa de seus problemas em fontes que não são as responsáveis por eles: os pobres, os homossexuais, os liberais, os ateus, os imigrantes, os negros e outros grupos que não são responsáveis pelas disparidades de riqueza e oportunidade.

Como o sr. vê a valorização das pessoas pelas democracias hoje em dia?

Há o risco de as pessoas verem a democracia como hipócrita, como uma máscara para elites poderosas controlarem o discurso e a sociedade em detrimento da maioria. Os líderes que incentivam essa narrativa, e obtêm sucesso por meio dessa estratégia, são muito mais corruptos do que os líderes que eles superam, e minam mais a retórica da democracia, alimentando o sentido de que esses líderes são “autênticos”. Jair Bolsonaro, Donald Trump e Narendra Modi nem mesmo inspiram competência e ninguém se inspiraria na existência de autocracias tecnocráticas, como Cingapura, para apoiar alguém como Bolsonaro.

É possível prever as condições que permitem que as democracias se transformem em autocracias e até ditaduras?

Há várias maneiras de as democracias se transformarem em autocracias e vários tipos de autocracia. Depois, existem os tipos de movimentos político que acabam frequentemente em incompetência e corrupção em massa, uma vez que seu principal valor político é a lealdade.

Em seu livro, o sr. diz que vitimização, anti-intelectualismo e deslegitimar a oposição são características importantes do fascismo. Por que políticos de países muito diferentes adotam essas estratégias?

O apelo à vitimização permite que os políticos justifiquem comportamentos antiéticos e sem princípios. Por exemplo, comportamentos ilegais e antiéticos são justificados porque são os alvos da mídia e da classe política supostamente injustas. Justifica o sentimento de queixa legítima de seus apoiadores. A vitimização do grupo dominante é muito poderosa, como vemos hoje na Índia, com o apelo ao nacionalismo hindu. Os hindus são a maioria da população (cerca de 80%) e muitos estão convencidos de que seu país está sob ameaça dos muçulmanos. O anti-intelectualismo faz parte do apelo das figuras de autoridade. A autoridade do homem-forte tem como base a força. E a deslegitimação da oposição faz parte do impulso antidemocrático.

Muitos desses líderes também fazem uso da religião e tentam se retratar como ‘escolhidos’. Há como combater isso?

O bom jornalismo deve revelar que tais afirmações frequentemente têm como base a hipocrisia. Os conservadores são essenciais aqui – cristãos que criticam o que está sendo feito em nome da religião. Também precisamos de cidadãos com um senso das tradições democráticas do país, como foi a maneira pela qual o Brasil emergiu da ditadura militar para ser a democracia em desenvolvimento mais inspiradora do mundo. Precisamos de membros das Forças Armadas que recusem distorcer a lei em nome do líder. A lealdade militar é ao país e à democracia.

Grandes democracias como Índia, EUA e Brasil são hoje lideradas pelo que muitos analistas definem como populistas. Em seu livro, o sr. prefere evitar esse termo. Poderia explicar o porquê?

Lula era populista. Bernie Sanders é populista. É absurdo ter uma categoria que agrupe Bolsonaro e Lula. Se o objetivo é combater políticos como Trump, Bolsonaro e Modi, que buscam dividir, é preciso ter políticas populistas que transmitam confiança às pessoas. O problema não é o populismo. É o que chamo de fascismo, concorde você ou não com esse rótulo. Muitos políticos que chamamos com naturalidade de populistas nunca empregariam as táticas que descrevo. Então, precisamos de outro termo. Talvez não seja fascista. Mas definitivamente não é populismo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Paulo Beraldo
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