'Queremos mais do que a música'

De Redação Estadão | 17 de novembro de 2020 | 07:04

Compositor dos mais atuantes dos dilemas de seu tempo, com álbuns e canções pautadas por uma grande capacidade de estar no lugar no outro, absorvida em uma família paraibana negra e matriarcal de cinco irmãs, Chico César fala ao Estadão sobre sua crença nas mulheres negras para se desfazer os nós do racismo e diz qual seria o melhor “lugar de fala” dos artistas brancos sobre o tema: o lugar de ouvir.

Tantas discussões, debates, enfrentamentos e canções…
Caminhamos alguma coisa nas questões raciais?

A presença da mulher negra está sendo definitiva no pensamento brasileiro sobre o racismo. Ela faz isso com mais força do que os homens ao trazer questões como o assédio, o estupro, o subemprego. As maiores respostas para as saídas desses dilemas estão sendo trazidas pelas mulheres negras.

A voz da mulher negra é mais forte do que a do homem negro?

Chegamos até esta situação porque estivemos pautados pelo contrário, o homem branco. Agora, precisamos colocar o espelho ao contrário. Sai o patriarcado branco, entra o matriarcado negro. Eu posso falar porque vim de uma casa com uma mãe e cinco irmãs, e sinto o quanto isso foi importante em minha visão de mundo.

Como sua mãe o influenciou?

Ela sempre dizia: mantenha sua cabeça erguida e não ande com brancos encrenqueiros. Quando ele fizer algo de errado, a polícia vai chegar e o único culpado será você.

Onde está o “lugar de fala” do artista branco. Muitos querem participar ao lado dos negros, sentindo suas dores, mas não fazem isso porque são acusados de se apropriar de um discurso que não seria legítimo pelo fato de suas peles serem claras.
Sinto que o melhor lugar a um homem hétero e branco, neste momento, seja o lugar de escuta. Artistas brancos precisam entender que durante muito tempo foram eles que fizeram as letras, as músicas e a arte enquanto os negros estiveram sendo silenciados. Mas penso também em Chico Buarque. Ele sempre terá um lugar de fala, como terão Fernanda Montenegro e tantos grandes artistas não negros do País. Chico falou do negro quando fez Pedro Pedreiro, Construção, Geni e outros personagens que certamente seriam negros na vida real. Eles podem falar sobre a periferia de forma que ela vá se identificar, mas é preciso, neste momento, estar mais atento para ouvir o que os negros têm a dizer. Quem já falou e cantou muito escuta um pouco agora. E, depois, traga essas vozes para junto de si.

Mas, além da escuta, não há uma posição no antirracismo?

Eu acredito que sim. Mandela tinha pessoas brancas a seu lado, havia muitos norte-americanos brancos nos protestos antirracistas. Mas é preciso saber que o protagonismo dessa luta é dos negros, assim como um homem nunca vai se tornar líder de um movimento feminista. E nós, negros, não podemos nos conformar em sermos os artistas de destaque, os esportistas de destaque, os músicos de renome. Queremos os cargos das empresas, ser médicos, professores, ministros da Fazenda.

A música é um dos poucos lugares onde os negros são vistos com superioridade por antecipação, sobretudo quando falamos de jazz, de blues e de samba. Podemos dizer que a música foi o único lugar onde o racismo não deu certo?

Eu sinto que essa ideia acaba reforçando estereótipos. Prefiro ver os negros cientistas, físicos, astrofísicos e pensar no geógrafo Milton Santos. Pensar no negro como o esportista, o músico, o percussionista é o mais fácil. Negros são seres complexos como os brancos que podem despontar em todas as frentes. O que adianta ser um grande jazzista negro se você só tocar para plateias brancas e, no intervalo dos shows, ser encaminhado para fumar na parte dos fundos de um clube de jazz? Em São Paulo, você sobe a Avenida Rebouças para entrar no Viaduto Noite Ilustrada. Muitos sabem que Noite Ilustrada foi um grande cantor negro (morto em 2003), mas quase ninguém sabe que Rebouças foi André Pinto Rebouças, um engenheiro baiano e negro.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Julio Maria
Estadao Conteudo
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