'Quero aproveitar o momento. Meu foco está em Tóquio em 2021', diz Ana Sátila

De Redação Estadão | 17 de novembro de 2020 | 08:38

Com foco nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Ana Sátila obteve recentemente o resultado que faltava para ganhar ainda mais confiança para conseguir um bom resultado no ano que vem. A brasileira faturou duas medalhas de ouro na canoagem slalom (também conhecida como C1) em etapas da Copa do Mundo. A primeira (e inédita dourada para o Brasil) foi conquistada na Eslováquia, no dia 18 de outubro. Ela repetiu o desempenho no último dia 8 na etapa de Pau, na França.

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Ana Sátila explica o motivo do bom desempenho, conta como foi o período de isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus e projeta os próximos meses até Tóquio, que será a sua terceira edição dos Jogos Olímpicos, além de falar sobre como trabalha a alternância entre a C1 e a K1.

Sobre as suas recentes vitórias na Eslováquia e na França, o que você acha que foram os fatores mais importantes para alcançá-las?
As duas competições foram um desafio muito grande. A gente teve de passar por muita coisa, adaptar desde o treinamento até a competição em si, foi muito diferente do que estamos acostumados. Eu precisei me adaptar durante esse tempo, então manter o foco, a cabeça no lugar, foi essencial para conseguir o equilíbrio entre ficar muito tranquila e estar preparada para qualquer mudança que poderia acontecer no meio do caminho. Fiquei muito feliz com minha preparação, foi um fator importante, e com tudo que foi preciso fazer para manter o foco total para conquistar aquele objetivo.

Como você se sentiu após conseguir a medalha inédita na Eslováquia? E após repetir a dose na França?
Muito feliz! Essa primeira medalha eu fiquei muito motivada, foi realmente um diferencial para mim, e é uma experiência incrível. Acho que era o que faltava de experiência para mim, conquistar uma medalha de ouro, conseguir remar bem, então foi muito legal. E repetir a dose na França, que é uma pista que eu amo muito e que eu realmente gosto de remar foi como um sonho. Então fiquei muito feliz de conseguir dar sequência com uma segunda medalha de ouro e conseguir voltar para casa com outro resultado tão positivo como esse.

Além dos bons resultados na slalom, sua categoria principal, você também foi bem no K1 com um quarto lugar na França. Planeja seguir competindo nas duas modalidades?
Sim, eu quero continuar nas duas categorias. Na verdade, o K1 foi a categoria que eu comecei na canoagem, que eu sempre fui apaixonada, e aí comecei no C1 muito tempo depois. No início eu não gostava muito da canoa, sempre preferi o K1, mas aí fui me apaixonando, comecei a treinar muito mais e agora eu gosto das duas igualmente e pretendo continuar tanto no K1 quanto no C1 e dando o meu melhor em ambas.

E como é dividir atenção entre a slalom e o K1? Dá para trabalhar nas duas sem problemas?
É realmente complicado administrar as duas categorias, a canoa e o caiaque. Tem que realmente treinar muito mais que o normal para conseguir levar as duas em um nível muito alto. Então, eu procuro remar tanto na canoa quanto no K1, no mesmo tempo para conseguir melhorar e manter o mesmo nível nas duas. Mas é um pouco complicado sim, principalmente em competição, a gente tem de estar muito preparado mentalmente e fisicamente para passar por longas baterias classificatórias. Fico cansada em fazer tudo em dobro, mas também é uma vantagem muito grande em conhecer a pista e entrar no ritmo da competição, então para mim sempre ajudou bastante. Claro que tem pontos negativos, mas tem ainda mais positivos e isso me motiva para seguir em ambas as categorias.

Quais são seus próximos passos?
Agora vou continuar treinando bastante. Vou descansar um pouco dessas duas competições, mas por pouco tempo, já quero voltar a trabalhar nos pontos que eu decidi que eram necessários durante as competições. Quero continuar treinando muito, me dedicando. Meu foco está em 2021. Quero aproveitar esse momento mas também sem parar de treinar e continuar com a cabeça no lugar, sempre pensando no meu objetivo.

Qual é o seu planejamento de treinos e competições até a Olimpíada?
Esse ano, já terminaram as competições, então é só treinamento. Mas ano que vem, pelo menos no início, a gente trabalha no Rio de Janeiro e depois começamos um cronograma muito intenso, com várias competições. Tem Copa do Mundo, tem os treinamentos oficiais dos Jogos Olímpicos no Japão, então vai ser uma correria.

Como a pandemia te afetou neste planejamento?
Acho que a pandemia tornou mais difícil para todo mundo. Eu tive que voltar para casa e efetuar quatro meses de treinamento em casa. Tive de que ter uma adaptação muito grande na parte física, a gente conseguiu montar uma academia em casa onde era possível fazer essa preparação e remar também na água parada, o que foi muito legal. Eu acho que a gente teve boas condições, mas para mim, pessoalmente, foi muito difícil psicologicamente de manter a cabeça no lugar, a gente não sabia se ia ter competição ou não. Mas eu consegui dar continuidade no meu treinamento que era o objetivo durante esse período e também me reservar bastante, ficar em casa e tomar todos os cuidados possíveis que conseguia.

Em que pontos você acha que vem evoluindo nos últimos anos? E no que vê ainda pode melhorar?
Principalmente durante as competições, acho que a experiência ajuda muito. Então, com muito tempo competindo, ganhei uma confiança muito grande, o que está me ajudando hoje em dia e que acho que é um diferencial. Procuro trabalhar muito e treinar bastante para também chegar com essa certeza que todo o trabalho foi muito bem feito, para quando eu estiver na largada eu saber que dei o meu máximo, que eu mereço estar ali e ter essa confiança que preciso para competir bem.

Quem você vê como suas principais adversárias hoje? E tem alguma estratégia para superá-las?
A Europa é muito forte na canoagem slalom, por ser um esporte de lá, eles têm desenvolvido muito as pistas em vários países, então é mais fácil você treinar em várias pistas diferentes, de um nível muito grande, isso ajuda bastante. Não tenho nenhuma estratégia específica, existe treinamento, dedicação, motivação, e a confiança, que são as coisas que nos ajudam a ser melhor e conquistar o primeiro lugar.

Poderia contar um pouco sobre a sua história na canoagem?
Eu iniciei no esporte aos cinco anos de idade, com o incentivo do meu pai, em Primavera do Leste, no Mato Grosso. Aos nove anos, eu conheci a canoagem slalom num projeto social da prefeitura, fui convidada para participar e treinar nos barcos e gostei muito, me apaixonei, um esporte realmente incrível. Comecei a ir sempre, a querer treinar todos os dias, me dedicar. Me apaixonei de primeira. Meu pai sempre me apoiou bastante, o que foi um diferencial. E não muito tempo depois eu passei a competir em campeonatos estaduais, municipais, e já ter resultados expressivos, porque eu era muito dedicada. Com todo o apoio da minha família, do meu técnico, da cidade, eu consegui treinar e montar uma estrutura muito legal ali no Rio das Mortes, em Primavera, até despontar no cenário nacional, em campeonato brasileiro em 2008 quando eu ganhei e foi muito importante na minha carreira. Foi quando eu decidi que era aquilo que eu queria seguir. Depois, em 2012, já integrei a seleção brasileira e comecei as viagens internacionais, a competir fora do País, conquistei a vaga olímpica em Foz do Iguaçu em 2012 e fui para Londres como a mais jovem representante do Brasil naquela edição dos Jogos. Desde então, tenho continuado nessa vida de competições internacionais e treinado bastante para conquistar mais e continuar representando meu País mundo afora.

Luís Filipe Santos, especial para a AE
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