Reabertura das escolas em SP tem choro e abraços 'proibidos'

De Redação Estadão | 7 de outubro de 2020 | 21:06

Teve choro das mães, das professoras e até do zelador, que não aguentava mais ficar sozinho, no primeiro dia de abertura de uma escola particular na zona norte de São Paulo. Na região sul, os adolescentes seguraram o contato físico até o fim da manhã, mas não resistiram e se abraçaram na saída, para desespero dos inspetores. Acolhimento ao ritmo de K-pop na quadra de uma escola estadual no Itaim Paulista, no extremo da zona leste. O Estadão acompanhou nesta quarta-feira, 7, a emoção e a tentativa de colocar em prática os protocolos de segurança em três escolas da capital, que recomeçaram as atividades presenciais depois de quase 7 meses fechadas por causa da pandemia do coronavírus.

“Parece que é o primeiro dia de aula da vida dela”, diz Dijane Lima, contadora, mãe de Sara, de 5 anos, lágrimas escorrendo para dentro da máscara. Ela observa a filha entrar, até sumir de vista, na Escola Projeto Vida, que fica na Casa Verde. “É triste e feliz. Tanto tempo em casa…dá dó ver de máscara”, completa.

Uma criança chega com um leão de pelúcia na mão e mochila de rodinhas, ambos tinham sido não recomendados pela escola para a volta, seguindo o protocolo. A professora Margareth Tieppo resolve o problema e diz que o leãozinho vai ser o “brinquedo de ficar na escola”, não de ir e vir. Ela recebe cada aluno na porta e leva à antiga sala de aula, onde ficaram por cerca de um mês só este ano. Indica que precisam tirar os sapatos e repete a todo instante: “distância, distância”.

Há 25 anos ela dá aula na Projeto Vida, o dia todo. “Quando parou, parou a vida. Este é um espaço de compartilhar conhecimento com crianças e é disso que a gente sente falta”, diz, também com olhos marejados. Mascarados, as professoras e funcionários da escola usam um crachá com uma foto em que estão sorrindo para facilitar a identificação. Cícero de Lima, que cuida da manutenção, fica com os olhos vermelhos vendo, finalmente, movimento na escola. “Que bom, rapaz, que emoção. Seis meses aqui, só barulho de passarinho, sozinho o dia inteiro, todo mundo sumido. Agora vejo todo mundo.”

No Colégio Bandeirantes, no Paraíso, o protocolo rígido contra a covid-19 se impõe desde os degraus da escada, logo depois do portão principal, com adesivos vermelhos com a inscrição “espere aqui”. Enquanto sobem, os alunos são flagrados por uma câmera de reconhecimento que mede a temperatura e dedura até quem está com a máscara meio pendurada no queixo – fato raro.

Os abraços são interrompidos no ar quando os adolescentes se encontram antes de as aulas começarem, perto das 8 horas. Só acenos e sorrisos mascarados denunciam como é bom se reencontrar. Alguns alunos estão tão ansiosos que chegam 45 minutos antes do início das aulas. Um grupo de sete amigas sente falta até do Café Panino, lanchonete que fica em frente ao colégio e que reabriu após quase 7 meses de quarentena. Elas dão um “salve” – de longe – para o Pedro Chaves, feliz, feliz no balcão. “Só o movimento que tive hoje foi melhor do que os dias de delivery”, comemora o empresário.

Dentro da sala de aula, apenas 15 alunos – para garantir o distanciamento físico e minimizar o risco de contaminação – fazem os reforços propostos para essa fase de reabertura em outubro. Só atividades extracurriculares foram permitidas pela Prefeitura. Na sala, um retângulo no chão indica o espaço que o professor deve ocupar, perto do projetor.

A imagem do docente falando e circulando pelas fileiras não existe mais. Ele e os alunos não podem sair do seu quadrado – os espaços ocupados pelas carteiras também são delimitados. “Também temos um procedimento em caso de dúvida do aluno, com o uso de face shield. Será uma aula muito mais tradicional”, diz Renato Pacheco Villar, coordenador de Ciências/Stem e Steam, abordagens que buscam a multidisciplinaridade entre Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Retorno na zona leste tem felicidade e preocupação com protocolos
Na zona leste, os estudantes da Escola Estadual Thomaz Rodrigues Alckmin também chegam antes da hora. “Eu estava muito ansiosa, estava querendo voltar muito, estou no 5º ano e tem muita coisa para aprender”, conta Emily Dutra, de 10 anos. O pai se diz “muito feliz” com a volta, mas preocupado com os protocolos. “Se eles vão se higienizar, se vão ficar com máscara o tempo todo em sala de aula, se a escola vai ter alguém acompanhando eles nesse processo…”, afirma Manuel Galdino, de 42 anos.

Logo na entrada, assim como nas escolas particulares, a temperatura era medida, pedia-se para higienizar as mãos com álcool em gel em totens e manter distância. E ainda havia máscaras a disposição de quem chegasse sem, ou precisasse de uma nova.

A primeira atividade das crianças – havia 11 dos 16 alunos da turma – foi ouvir sobre o protocolo. Não faltava sabão líquido nos banheiros. Depois, na quadra, dançaram e se alongaram ao som de Senõrita, Balão Mágico e Gangnam Style. “Eles estavam muito felizes, não dá para ver o rostinho, mas dá para ver os olhos”, diz, emocionada, a professora Michelle Queiroz, de 40 anos. Houve ainda roda de conversa, leitura e contas na lousa. “Eu queria voltar e meus pais também, porque em casa a gente não aprende que nem na escola”, disse Lucas Enemona de Almeida, de 11 anos.

Na zona norte, Miguel, de 5 anos, pulava pela sala, bracinhos para cima, correndo de um lado para o outro. “Eu tô feliz”, dizia. O colega Martin olhava aos poucos para os dinossauros de brinquedo, reconhecendo o ambiente. No pátio, se soltam, correm para os brinquedos, brincam de pirata, chegam mais perto um do outro. Depois, a equipe de limpeza vaporiza tudo com uma solução química. “É uma rotina nova, materiais e higiene pessoal vão ocupar um espaço importante do dia”, diz a diretora da escola, Monica Padroni.

Raul, de 10 anos, conta que dormiu de uniforme de tão ansioso que estava para voltar. “Eu só saía para passear com o cachorro e ir ao mercado, não aguentava mais”, mas fala da pandemia com preocupação e sabe até a quantidade de mortos no País, de cor.

Os mais velhos brincavam de pega-pega, mas encostando o pé e não as mãos, quando um pegava o outro. E ouviram histórias na biblioteca sem poder pegar os livros. “Eles costumavam levar um livro para a casa toda a semana, mas agora teríamos que deixá-lo em quarentena, então eu vou contar as histórias”, explica a educadora Juliana Bonito, que cuida da biblioteca.

Nesta unidade da escola cabem 1 mil alunos, foram 25 só neste primeiro dia porque apenas o 4º ano podia ter atividades presenciais nesta quarta-feira. Cada dia será para uma série diferente. A outra diretora Silvia Elayne de Oliveira não reclama. “É estranho ver a escola vazia, mas é já bom vê-la com os alunos.”

Lá no Bandeirantes, na saída foi difícil manter o protocolo. “É muito difícil não abraçar. Foram sete meses de isolamento. Dá um desconto, tio?”, suplica um aluno que não quis se identificar, flagrado pelo Estadão no meio de um abraço na calçada do colégio. Os pequenos da Projeto Vida também saem da escola e se juntam abraçados para uma foto pedida pelos pais, que querem registrar o primeiro dia. Mari, de 5 anos, corre para mãe. “Foi demais, quero voltar.”

Renata Cafardo, Gonçalo Junior e Marcela Coelho
Estadao Conteudo
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