Rumo ao Mundial, árbitra brasileira pede: 'Não temos de ser tratadas por gênero'

De Redação Estadão | 12 de janeiro de 2021 | 08:00

Edina Alves Batista, de 41 anos, vive a expectativa mais especial dos seus 20 anos de carreira como árbitra. A paranaense de Goioerê viaja no fim deste mês ao Catar para apitar o Mundial de Clubes e vai se tornar a primeira mulher a atuar no comando de jogos masculinos de competições da Fifa para a categoria adulta. Orgulhosa pela conquista, ela torce para que essa nomeação quebre várias barreiras na arbitragem. O aumento da presença feminina e o fim da divisão por gênero na profissão são os seus sonhos.

A juíza conversou com o Estadão pouco depois de ser confirmada pela Fifa no Mundial. Entre um compromisso e outro pelo Campeonato Brasileiro, Edina relembrou o início na carreira e o quanto aos poucos a arbitragem tem se tornado um mundo mais aberto. “Está chegando a hora de nós, os árbitros, não sermos mais tratados por gênero, mas sim por capacidade. Tudo está indo por esse caminho agora”, disse. “A divisão por gênero tem de acabar. Tudo tem de ser pela competência”, afirmou.

A carreira da paranaense ficou em mais evidência em 2019, quando ganhou a chance de apitar a semifinal do Mundial Feminino entre Inglaterra e Estados Unidos. No mesmo ano, apitou o encontro entre CSA e Goiás, pelo Brasileirão, e encerrou um intervalo de 14 anos sem que uma mulher apitasse um jogo de elite no futebol brasileiro. Antes dela, Silvia Regina foi quem havia trabalhado.

A repercussão do trabalho e o espaço no mundo masculino da arbitragem fazem Edina ser bastante procurada por admiradoras. “Muitas mulheres me escrevem nas redes sociais porque olham para mim e se espelham para pensar que tudo pode acontecer. Muitas até me procuram não porque querem ser árbitras, mas porque me consideram como uma conquista de espaço no ambiente de trabalho”, contou.

Para chegar ao status de árbitra de competições da Fifa o caminho foi longo. Edina sempre gostou de esporte e trabalhou pela primeira vez aos 19 anos em um jogo amador. A oportunidade despertou o sonho dela em seguir a carreira, apesar do desejo da família. “Minha mãe dizia que ser árbitra não era coisa de menina. Ela queria que eu fizesse cursos de datilografia ou pintura”, contou.

De família humilde, Edina decidiu procurar um trabalho que lhe ajudasse a pagar a faculdade de Educação Física e também os cursos necessários para a formação em arbitragem. “O meu primeiro emprego foi em um viveiro de mudas. Eu enchia os saquinhos de terra para poder pagar meus estudos. Eu gostava do serviço”, contou. Aos fins de semana, ela deixava Goioerê para apitar pelo Paraná em campeonatos de futsal e futebol.

A carreira de Edina aos poucos evoluiu e deixou de caber na pequena Goioerê e seus cerca de 30 mil habitantes. Há três anos ela se mudou para São Paulo, onde tem uma rotina cheia de estudos teóricos sobre arbitragem, revisão dos jogos em que trabalhou, treinos físicos e aprendizado do inglês. Atualmente a arbitragem é a única fonte de renda da paranaense.

Embora cada vez mais conhecida no futebol, Edina afirmou que apenas isso não é o suficiente para ganhar o respeito dos jogadores. “O respeito você conquista conforme vai acertando dentro da partida. Se você conduz o jogo de maneira correta, eles respeitam. E isso não é por eu ser mulher. Vale para qualquer um. Se o jogador for mal, vai para o banco de reservas. Eu, no meu caso, se for mal eu fico sem apitar”, comentou.

Quando ainda enchia os sacos de terra e iniciava na arbitragem, o sonho dela era chegar à Série A. Agora, Edina já pode se dar ao luxo de projetar novos desejos profissionais enquanto aguarda que a trajetória sirva de inspiração e de exemplo de como se pode quebrar barreiras. “Meu sonho um dia é apitar em uma Olimpíada. E essas conquistas não são minhas. É do povo brasileiro, que também passou a apoiar mais a presença feminina na arbitragem”, contou.

Ciro Campos
Estadao Conteudo
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