Sem grilo, Emanuelle Araújo canta Jards Macalé

De Redação Estadão | 9 de março de 2020 | 08:00

Na adolescência, quando participava de um grupo de teatro em Salvador, Emanuelle Araújo foi apresentada à obra de Jards Macalé. Ela achou instigantes as melodias não óbvias do compositor, que ganharam letras de Capinan, Torquato Neto e Waly Salomão. Desde que se mudou para o Rio de Janeiro, há pouco mais de 15 anos, ela pensava em fazer um disco com músicas dele.

A ideia se concretizou no fim de 2018. Em Quero Viver Sem Grilo – Uma Viagem a Jards Macalé, Emanuelle interpreta dez músicas do compositor. Nos últimos anos, o cancioneiro dele foi reavaliado e o artista se aproximou de nomes importantes da geração contemporânea no elogiado álbum Besta Fera, que saiu no ano passado.

Enquanto passava uma temporada em Nova York, no fim de 2018, Emanuelle decidiu se dedicar às canções de Macalé, convidando instrumentistas brasileiros e americanos para participar do álbum. “Após as eleições eu fiquei muito mexida, era um momento emocional de muita ebulição. Pensei que era a hora”, conta a cantora. Ela optou por um formato de power trio, sustentado pelas presenças do guitarrista Guilherme Monteiro, do baixista francês Ben Zwerin e do baterista americano Bill Dobrow, com intervenções de Lan Lanh e Mauro Refosco na percussão.

A cantora escolheu músicas representativas da trajetória de Macalé, mas passou ao largo das obviedades. Mal Secreto e Vapor Barato, lançadas por Gal Costa, por exemplo, ficaram de fora. “Achei que eram canções muito conhecidas”, justifica, ressaltando que ambas devem ser inclusas nos shows com o repertório do disco.

Das canções célebres, Emanuelle escolheu Movimento dos Barcos, Anjo Exterminado – ambas foram lançadas por Maria Bethânia – e Hotel das Estrelas. Escolhida como single de Quero Viver sem Grilo, a faixa também ganhou videoclipe dirigido por Jorge Farjalla. “Procurei ser fiel à essência de cada canção”, explica a cantora.

Quando a gravação estava no fim, Emanuelle se lembrou de uma música que Macalé fez em 1977 para a trilha sonora do programa infantil da TV Globo Sítio do Pica-Pau Amarelo, baseado na obra do escritor Monteiro Lobato. Na internet, ela achou a gravação de Tio Barnabé. “A música tinha uma identidade afro-baiana, tribal. Pensei na referência africana da letra e melodia”, afirma.

Emanuelle pensava em batizar o álbum como Boneca Semiótica, curiosa parceria do homenageado com o multiartista Rogério Duarte e os poetas Chacal e Duda Machado. Depois da mixagem, ela optou por Quero Viver Sem Grilo. A música veio à luz quando gravações caseiras do compositor saíram em uma caixa com discos que ele fez nos anos 1970. “Essa música combina com o processo que me fez começar o disco, o cenário que eu estava vivendo e o momento atual”, diz a cantora, que ainda este ano vai se dividir entre o cinema e os palcos.
Ela está no elenco de O Meu Sangue Ferve Por Você, filme baseado na vida e carreira do cantor Sidney Magal. No segundo semestre, ela começa os ensaios para uma nova montagem nacional de Chicago, sua estreia em musicais.

Renato Vieira
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário