'Sete Anos em Maio' e 'Vaga Carne' para ver no streaming

De Redação Estadão | 14 de maio de 2020 | 07:40

Foram quase 40 festivais de todo o mundo e prêmios em mais de dez deles – Visions du Réel, IndieLisboa, FilmAdrid, Festival do Rio, Janela Internacional do Cinema (do Recife), Olhar de Cinema (Curitiba), além do elogio superlativo da revista de língua inglesa FilmComment, que simplesmente coloca o mineiro – de Contagem – Affonso Uchôa entre os maiores diretores do mundo. Tantos elogios não fazem o diretor perder a cabeça e o filme da vez, com todas essas credenciais, é Sete Anos em Maio. Por se tratar de uma média-metragem, deveria estrear num programa duplo, reunido pela distribuidora Embaúba com Vaga Carne, de Ricardo Alves Jr., mas a pandemia retardou o lançamento e agora os dois filmes entram separadamente no streaming, a partir desta quinta-feira, 14.

Sete Anos em Maio entra no site da Embaúba, Vaga Carne no da distribuidora e também no da Spcine. Vaga Carne é a transcriação da peça de teatro escrita e interpretada por Grace Passô. Em janeiro, o filme abriu, fora de concurso, a Mostra de Tiradentes. Em fevereiro, integrou a programação paralela da Berlinale. “É uma plateia muito exigente, muito focada em questões de linguagem e gênero, questões políticas, e foi muito interessante apresentar o filme lá. Tínhamos, o Ricardo (Alves) e eu, a expectativa de saber como um outro olhar reagiria, e Berlim foi muito bom porque o festival é muito aberto à inovação. As pessoas se interessam, discutem. Uma distribuidora (a Arsenal) nos contactou para representar o filme em foros internacionais”, explica Grace.

Grace fala de casa – na Praça da República, em São Paulo -, onde cumpre o confinamento. “Esse vírus (o corona) permite muitas possibilidades de leituras metafóricas, mas acima de tudo nos confronta com o inferno que virou o Brasil. Cada dia, a par da questão da saúde, temos alguma nova crise. O conservadorismo, que sempre existiu, explodiu nesse governo. Tem dias que produzo muito, em outros só fico pensando, pensando, refletindo sobre tudo isso que estamos vivendo.”

Vaga Carne nasceu, no palco, da vontade de dar forma a indagações que consumiam Grace – como atriz, autora e mulher. Um corpo imóvel, no palco, animado por uma voz cuja vibração expressa as transformações sobre esse corpo. “É inumano, porque a voz se multiplica em objetos, bichos. Por ser mulher, minha presença reverbera questões associadas às mulheres, mas o que é falado é mais amplo. Hoje a gente tem todas as ferramentas do digital, as redes sociais. As informações circulam muito mais rapidamente.”

Seis personagens à procura de um autor, Pirandello. Uma voz à procura de um corpo. Um corpo habitado por múltiplas vozes – o estranhamento. “Ricardo e eu fizemos a transcriação, do palco para a tela, conjuntamente. Ele é um amigo e um parceiro. Ricardo é muito ligado na questão do cinema. Fizemos o Sarabanda (de Ingmar Bergman) colocando o público no palco e usando câmera para integrar a profundidade da plateia. Aqui, a questão do som é fundamental.”

Uma curiosidade do repórter – até que ponto o monólogo de Jean Cocteau, filmado por Roberto Rossellini com Anna Magnani, A Voz Humana, foi referência, ou influência? “Não foi, nunca pensei, nunca pensamos. Vou até conferir, agora que você está falando.”
Há outra voz em Sete Anos em Maio. O cinema de Affonso Uchôa constrói-se em narrativas orais – A Vizinhança do Tigre, Arábia. Ele conhecia Rafael dos Santos desde 2005. Um dia, ele sumiu. Rafael conta diante da câmera sua história. Sete anos antes – o filme é de 2018 -, ele chegava em casa do trabalho.

Estranhos armados o aguardavam, e o levaram. Rafael nunca mais foi o mesmo. A experiência transformou-o. Uchôa prossegue dando voz aos elementos da periferia, da classe trabalhadora.

“A história do Rafael é representativa de como a polícia age nas periferias políticas, de como as vidas são cortadas pela violência desmedida.” Um cinema da voz, outro corpo que agora é concreto. “O que o Rafael conta é muito forte. É emocionante, e eu procurei uma linguagem que não fosse só um registro. Ela é muito mais simbólica do País em que vivemos.”

Como sempre, Uchôa trabalha com não atores, mas ele não gosta da definição. “Todo mundo é ator diante da câmera, todos somos atores de nossas vidas. Gosto de não profissionais porque eles já chegam com uma carga muito potente de verdade. O Rafael – é a história dele, então ficou claro que ele teria de participar criativamente. A linguagem, a construção dramática, tudo tinha de estar a serviço do Rafael e de sua história. Em toda parte o filme é visto como uma cara do Brasil que muita gente não quer ver, mas é real. Me preocupo com a linguagem, porque o cinema é a minha ferramenta, e os filmes que faço, com as pessoas que me acompanham (João Dumans, que codirigiu Arábia, tem crédito de roteiro), são necessários.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
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