'Sistema foi construído com base no medo e repressão', diz ativista bielo-russo

De Redação Estadão | 18 de agosto de 2020 | 14:44

Um país em que a maior parte das empresas e dos empregos são públicos, em que não há eleições livres e em que alguém pode ser preso simplesmente por criticar o governo. Em que a polícia reprime e espanca quem se manifesta. E que vive sob a marca de ser “a última ditadura da Europa”. Essa é a Bielo-Rússia, onde milhares de pessoas protestam contra o governo do ditador Alexander Lukashenko desde 9 de agosto.

O ativista político Piotr Markielau, de 25 anos, tem participado desses atos e diz que boa parte da população não aguenta mais a falta de liberdade no país. Nos últimos dias, trabalhadores de fábricas estatais, mineradores, moradores de pequenas e grandes cidades, funcionários da administração pública, jovens, adultos e idosos se uniram nas ruas contra um modelo político que desejam transformar.

“Esse sistema autoritário foi baseado no medo, as pessoas que apoiam Lukashenko não iam aos seus eventos voluntariamente, eram forçadas”, explica Piotr. “Não era por ideias, era uma motivação pelo medo de perder o emprego, de perder dinheiro. É isso que tem acontecido há 26 anos e as pessoas não aguentam mais”, afirma ele, que espera uma transição democrática pacífica. Em nenhuma outra república que integrou a União Soviética alguém está no poder há tanto tempo.

Ativista desde 2013, Piotr já foi preso várias vezes e diz que o regime é o mais duro da Europa. O ativista relata ter amigos e conhecidos presos há mais de oito anos – a libertação de presos políticos também é uma demanda dos atos. Cinco dias após a eleição, ao menos 6.700 pessoas foram detidas e duas morreram.

“Muitas pessoas foram espancadas, massacradas após as detenções. Um amigo meu apanhou tanto que teve a ‘sorte’ de desmaiar e ser enviado para um hospital. Se não, continuaria sofrendo”, contou. “Outro teve de passar por cirurgias após tantas agressões”.

É contra esse sistema que mais de 200 mil bielo-russos foram às ruas no último domingo na maior manifestação da história recente do país e seguem protestando há dias contra o que acreditam ter sido uma eleição fraudada. A candidata de oposição, Svetlana Tsikhanouskaya, teve apenas 10% dos votos, enquanto Lukashenko teve improváveis 80%, em um resultado que não foi reconhecido pela União Europeia nem pela população.

Durante a campanha eleitoral, três candidatos de oposição passaram a fazer sombra a Lukashenko, que reagiu – dois foram presos e um se exilou. Então, a esposa de um deles, Svetlana Tsikhanouskaya, uma professora de inglês de 37 anos, se lançou em uma improvável campanha que mobilizou o país contra o ditador. Desde o resultado das urnas, o país vive protestos em diferentes regiões que pedem novas eleições e a saída de Lukashenko.

Piotr diz que o momento do país é diferente porque os atos não se concentram apenas em Minsk, mas ocorrem de forma generalizada. “É uma sensação de que Lukashenko está contra o próprio povo. Já vimos até policiais e oficiais do governo apoiando publicamente os protestos”. Procurada, a Embaixada da Bielo-Rússia no Brasil não quis comentar a situação política do país.

Nos últimos dias, ministros, embaixadores e funcionários públicos apoiaram os protestos. Piotr diz que a Rússia, grande parceiro econômico e aliado histórico da Bielo-Rússia, por onde passam oleodutos que transportam gás russo para a Europa, vai exercer pressão. “Mas não acho que vão intervir com tropas militares”.

Svetlana Tsikhanouskaya criou um comitê de coordenação para discutir uma transição pacífica, embora Lukashenko tenha dito que só haverá eleições “se ele morrer”. E quanto ao futuro? “Se essa onda continuar, Lukashenko não terá nada a fazer. É nossa hora de agir, de resistir e isso está acontecendo”.

Paulo Beraldo
Estadao Conteudo
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