'Só sabia que não podia cair de jeito nenhum', diz Maya Gabeira

De Redação Estadão | 12 de setembro de 2020 | 08:30

Quando o alemão Sebastian Steudtner puxou Maya Gabeira para a onda, os dois sabiam do enorme potencial, mas não imaginavam que seria o novo recorde mundial de uma onda surfada por mulher: 22,4 metros (73,5 pés). “Ele está superfeliz com essa marca e precisa se sentir parte disso. Treino com ele há anos e é uma pessoa que acredita em mim. Muito mérito para ele”, disse Maya, ainda eufórica por colocar seu nome mais uma vez no Guinness, o livro dos recordes.

A façanha ocorreu na praia do Norte, em Nazaré (Portugal), durante a disputa do Nazaré Tow Surfing Challenge, em 11 de fevereiro. O recorde foi homologado nesta semana e ela se juntou a Rodrigo Koxa, outro brasileiro, que detém a melhor marca masculina, com 24,38 metros (80 pés), obtida em 2017.

A conquista de Maya chama ainda mais atenção porque foi no mesmo local, em 2013, que ela quase morreu afogada após cair de uma onda monstruosa.

De Portugal, onde vive, ela conversou com o Estadão e falou sobre a nova marca, o legado que deixa para as mulheres no esporte e sobre o feito de ter surfado a maior onda da temporada, mesmo em comparação com os homens. E não vê a hora de começar a ver as grandes ondulações chegando no litoral português para desafiar os limites mais uma vez.

Você está com 33 anos e já tinha decidido se arriscar menos nas ondas gigantes. Esse recorde chega num momento inusitado da sua carreira?
Para ser sincera, não era um plano. A gente teve o primeiro evento de tow-in esse ano e, quando anunciaram a competição, isso virou meu grande foco, por ser o primeiro evento profissional. E eu seria a primeira mulher fazendo dupla com homem, com o Sebastian. Fiquei focada e me preparei, pois queria chegar o mais próximo possível dele, que é um grande surfista de ondas grandes.

Como funciona essa parceria com quem pilota o jet ski?
É ele quem escolhe a minha onda. O trabalho dele é tão essencial ou mais que o do surfista. Como estava em campeonato, a preferência era nossa para surfar, então não tinha muita gente disputando a onda.

Você ampliou sua marca de 20,7m para 22,4m. Dá para descrever essa quantidade de água vindo atrás de você?
O que mais lembro dessa onda é um barulho muito alto. Só pensei que ali não podia cair de jeito nenhum. Então eu seguro uma primeira explosão, fico na espuma, mas depois caio impulsionada para frente. Aí logo sou resgatada pelo Sebastian.

Como você vê o avanço da tecnologia para medir o tamanho das ondas surfadas com mais precisão?
Isso foi um pedido meu, já vinha batendo nessa tecla. Sabia que a onda da Justine (Dupont) era muito próxima da minha. Queria ter certeza e achava que o método de medição precisava evoluir, pois saber o tamanho da onda é importante. Era uma mudança que via como necessária e foi o momento certo para fazer isso. Contrataram o pessoal que fez a onda do Kelly Slater (WaveCo Science), junto com o Scripps (Instituto de Oceanografia) e estudaram a melhor forma de calcular.

O fato de ter sido em Nazaré, onde você quase morreu surfando, te traz lembranças importantes?
Eu moro aqui há muitos anos. Tem que ser aqui, não dá para ter um recorde mundial fora, pois formam as maiores ondas do mundo. Minha relação com Nazaré começou de forma turbulenta, tensa. Mas sempre tive visão de que a longo prazo esse lugar seria importante para o esporte. Tanto que acabou se firmando como a meca do surfe de ondas grandes.

Você decidiu construir sua carreira aí faz tempo. Como está agora? Os atletas descobriram o litoral português?
Há muito surfistas aqui e só cresce. As pessoas passam quatro ou cinco meses na temporada, e tem gente que vem só para os dias de ondas grandes. Tem uma comunidade do surfe bem grande agora.

Você vem quebrando muitas barreiras no surfe, por estar em um esporte predominantemente masculino. Foi muito difícil abrir essas portas?
Sempre é, a mudança é sempre difícil. Ser minoria é uma dificuldade, e demora até estabelecer nosso espaço. Mas também tem o lado bom disso, pois tive menos competição, menos adversárias para batalhar meus recordes (risos). Mas conseguimos a criação das categorias, do recorde feminino, de ter respeito da comunidade.

Acha que deixa um legado para as novas gerações de mulheres no surfe?
Sim, e acho isso maravilhoso. O que mais me motiva quando penso nesse feito é que todas as mulheres podem olhar e sentir representadas num espaço que não é fácil. Uma mulher surfou a maior onda da temporada. Isso vira meta e sonho para outras surfistas. É poderoso o que aconteceu este ano: uma mulher com performance alta numa modalidade dominada por homens. Ainda tem um próximo objetivo, que é estimular mais mulheres a pilotar o jet ski nessas condições. A mulher pode ser puxada e o homem precisa ter confiança de que pode jogar ela na onda. No evento em Portugal, eu pilotei e fui puxada também. Então gostaria de incentivar isso, para que mais mulheres façam isso.

Esse recorde chega em um momento em que você não está com tantos patrocínios como antes. Como está sendo sobreviver como atleta?
Não sei por que isso aconteceu, mas eu saí um pouco da área de patrocínio e adesivo na prancha para ter uma renda mais em cima, de conteúdo, filmes e campanhas publicitárias. Mudei a forma como ganho dinheiro e isso cada vez fica mais forte na minha vida. Claro que uma coisa não anula a outra e estou aberta a propostas.

Quais são seus próximos projetos?
Eu moro em Nazaré e estou me preparando para a temporada que começa no mês que vem. A pandemia balançou um pouco a estrutura, mas vou ficar por aqui para surfar.

Paulo Favero
Estadao Conteudo
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