Solidão paulista

De Redação Estadão | 12 de março de 2020 | 07:00

Quando desembarcou em São Paulo, a jovem Regina Braga observou a cidade com um pouco de receio, algo que se confundia com fascinação. A mineira deixou Presidente Prudente, no interior de São Paulo, para estudar na capital, e deitar raízes.

Nesta quinta, 12, ela estreia São Paulo, no Teatro Unimed, espetáculo que nasceu no dia em que Regina pisou aqui pela primeira vez. “Logo eu já estava cercada de amigos e cheia de sonhos para o futuro, e uma história para contar”, diz em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Tudo o que eu sempre quis era sair do interior. Fiquei assustada com o tamanho da cidade, mas as pessoas que conheci me fizeram sentir que eu era mesmo dessa tribo.”

Para desbravar a selva de pedra e seus moradores, a atriz recorreu à obra do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, autor de A Capital da Solidão, em que o autor descreve a fundação da principal cidade do País, a partir dos três primeiros séculos, quando São Paulo era ainda isolada do centro do poder político. O livro segue até o século 20 quando a cidade já despontava como grande metrópole, lar de todas as culturas. “É uma obra que abriu meu entendimento para viver aqui. Depois desse livro, sinto que o passado de São Paulo passou a fazer mais parte do meu cotidiano”, afirma.

Além de A Capital da Solidão, Regina se debruçou em uma infinidade de textos e autores que produziram crônicas, poesias, romances e material histórico a respeito da vida na capital paulista, suas transformações, o desafio da violência, do crescimento da desigualdade, o choque cultural e, claro, a correria diária.

São muitos: os modernistas Alcântara Machado, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, Paulo Prado, autor de Retrato do Brasil, o poeta Castro Alves, o teatrólogo jesuíta José de Anchieta, o cantor e compositor Itamar Assunção, o dramaturgo santista Plínio Marcos, o poeta Paulo Bomfim, e o médico e escritor Drauzio Varella, marido de Regina. “Dessa vez, não pedi ao Drauzio um texto novo. Recentemente ele escreveu sobre a presença de inúmeras espécies de pássaros que vivem e visitam a cidade. É uma chamada para observar a natureza que consegue se abrigar e desenvolver nesta selva de pedra.”

A etapa de seleção dos textos foi mais complexa, lembra a atriz, que teve auxílio no roteiro da diretora Isabel Teixeira, parceira de Regina nos espetáculos Desarticulações e Agora Eu Vou Ficar Bonita, com texto original de Drauzio. “São muitos assuntos quando se pensa numa cidade desse tamanho”, diz atriz. “A vida em São Paulo depende de muitas coisas, como o lugar em que você vive, sua família, emprego, além da história construída ao longo dos anos.”

O espetáculo tem uma cronologia bem regular, dividida em três partes. A primeira, chamada A Terra, se volta às origens da cidade com os escritores que viveram a cidade no período da chegada dos colonizadores, até a formação da vila. A seguir, a peça resgata a história dos primeiros habitantes de São Paulo, sensação definida pelo escritor e compositor José Miguel Wisnik como “uma das principais maneiras de ser paulista é não ser de São Paulo”. “É algo que grande parte dos moradores sente, mesmo que você tenha nascido fora da capital”, afirma a atriz. Por último, Regina chega ao tempo presente para cantar o crescimento explosivo e os desafios atuais de uma das principais capitais do mundo.

Em cena, a atriz replica um procedimento cênico em que conjuga a palavra com a musicalidade, quase sempre o samba e a música popular, como foi na direção de ToTatiando, com Zélia Duncan (leia abaixo). No palco do Teatro Unimed ela está acompanhada de Vitor Casagrande, no cavaquinho e bandolim, Alfredo Castro, percussão, e Guilherme Girardi nos violões. “A gente transforma alguns trechos em canções, em outros momentos é pura música.”

SÃO PAULO
TEATRO UNIMED
ALAMEDA SANTOS, 2.159.
5ª, 6ª E SÁB., 21H. DOM., 18H.
ESTREIA 5ª (12/3).
R$ 90 / R$ 45. ATÉ 5/4

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Leandro Nunes
Estadao Conteudo
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