SP já teve zeros casos. Mas quadro é incerto

De Redação Estadão | 19 de agosto de 2020 | 07:00

No dia 13, o boletim epidemiológico da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo trouxe um cenário aparentemente animador: nenhuma morte por covid-19 havia sido registrada na cidade no dia anterior, 12 de agosto, se considerados os dados por data de ocorrência do óbito. Seria o fim da pandemia na cidade, que chegou a ter média de cem mortes por dia em junho? Mas apenas três dias depois o boletim diário da pasta mostrava que, no mesmo dia 12, pelo menos 53 pessoas haviam morrido por complicações do vírus na cidade.

A explicação para a mudança significativa no número de vítimas de um mesmo dia está no formato de divulgação dos dados pela Prefeitura. Desde julho, o órgão passou a apresentar também o número de óbitos pela data em que ocorreram e não só pelo dia da confirmação.

A opção, embora não esteja incorreta, pode confundir a população ao passar uma impressão de queda significativa nos números da pandemia, segundo especialistas. Isso porque o registro da morte leva alguns dias para passar a constar no sistema de óbitos municipal. A causa é a demora na liberação de resultados dos testes, atrasos no preenchimento de formulários e falhas em sistemas informatizados de registro.

Por causa do atraso na notificação, as alterações são comuns. Se comparados os números do boletim de 16 de agosto com os do dia 13, é possível ver que houve inclusão de novas mortes em 8 dias de 12 analisados. “O ideal na epidemiologia é fazer as análises pelo dia da morte mesmo, mas nesse caso em que há um monitoramento diário da pandemia os atrasos nos testes podem levar a uma conclusão de que as mortes estão caindo nos últimos dias, mas essa queda nem sempre é real”, explica o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Os óbitos dos últimos dias da série sempre vão cair por causa da demora que existe para a confirmação. Isso passa falsa impressão de situação mais calma”, ressalta Paulo Inácio Prado, professor do Instituto de Biociências da USP e integrante do Observatório Covid-19 BR.

Para os especialistas, o outro método de divulgação, dos números por data de confirmação, também tem problemas. “Nesse caso, podemos ter uma distorção para mais ou para menos”, afirma Prado.
O ideal é que os dois formatos de dados sejam divulgados com a devida explicação sobre as limitações de cada um.

Outra estratégia para diminuir o impacto do atraso nas notificações é utilizar projeções para estimar o número de óbitos que estão ocorrendo de acordo com a tendência dos dias anteriores. Uma das técnicas, a de média móvel, calcula o número médio de óbitos dos últimos sete dias, por exemplo, para eliminar eventuais distorções.

Outro método

O Observatório Covid-19 BR usa ainda uma técnica estatística chamada de nowcasting para calcular o período médio de atraso entre a data da morte e a da notificação para, assim, estimar o número real de óbitos para cada data. De acordo com a análise do grupo, a média de mortes diárias na capital paulista considerando essas projeções ainda está na faixa das 40 a 50 por dia.

“Em junho, a cidade tinha uma média de cem óbitos por dia e agora caiu para a metade, mas não podemos dizer que a pandemia acabou. Não só pelo atraso nas notificações, mas pelo risco de termos um novo aumento”, afirma Prado.

Ele conta que a Prefeitura chegou a usar o método nowcasting nos primeiros meses da pandemia. A análise era feita por meio de parceria com o Observatório. A colaboração, porém, foi extinta pela administração municipal em maio.

A Secretaria Municipal da Saúde afirmou que o registro dos óbitos pela data de ocorrência “é o critério mais apropriado para monitorar a evolução da pandemia, planejar políticas assistenciais e nortear a tomada de decisão dos gestores”. Segundo a pasta, o planejamento continua considerando projeções obtidas pelo nowcasting.

De acordo com a secretaria, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/Pro-Aim) exige a atualização diária dos dados das datas anteriores conforme as notificações recebidas, inclusive do referido dia de óbito. O sistema, diz a pasta, processa as declarações de óbitos em tempo médio de 3,5 dias após o documento ser recebido.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fabiana Cambricoli
Estadao Conteudo
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