Todo o amor que há nessa vida

De Redação Estadão | 19 de abril de 2020 | 07:00

Lília Cabral não era próxima de Domingos Oliveira, mas como todo mundo admirava o autor de teatro, cinema e TV. “Ele falava de afeto como ninguém, de uma maneira muito bonita”, diz. Na quinta, 23, começa na Globo a minissérie em 12 capítulos, Todas as Mulheres do Mundo – baseada no filme homônimo de 1966. O primeiro capítulo passa na TV aberta, os seguintes, no Globoplay. A história de Paulo, que salta de uma mulher a outra, até conhecer e se apaixonar por Maria Alice. Paulo é Emílio Dantas, com um visual diferente. Cada mulher ocupa um episódio. Lília Cabral é a mãe dele. Tem direito a um capítulo só dela.

“A mãe é uma personagem muito interessante. É independente, uma artista, escultora. Mora na serra, enquanto o Paulo é urbano, um homem da cidade. Tenho um romance com Floriano Peixoto, um ator com que não contracenava havia muito tempo, e foi muito gostoso.” Todas as Mulheres ainda vai estrear, mas Lília já está no ar, de segunda a sábado, nas noites da Globo, com a edição especial de Fina Estampa. Griselda, sua personagem, é uma figura – a mulher do macacão, trabalhadora, que expulsa de casa o próprio filho, porque Antenor/Caio Castro a renegou, contratando uma mãe de aluguel para impressionar a socialite Tereza Cristina/Christiane Torloni, mãe de sua namorada da faculdade. O repórter conta que, em tempos de isolamento social, tem acompanhado as aventuras (desventuras?) de Griselda.

“Ai, que delícia!”, e Lília acrescenta. “Eu também, vejo todas as noites, e agora com distanciamento. Vejo com olhar de público. Griselda é uma guerreira, uma mulher cheia de ética, um exemplo para esse país em que muitos pais passam a mão na cabeça dos filhos, não importa o que façam.” Griselda acredita em responsabilidade – pessoal e social. “Aguinaldo Silva (o autor) não quis levantar uma bandeira. O que ele queria era contar a história de uma brasileira que havia conhecido nos anos 1970. Uma mulher que levava uma vida dura, mas cheia de esperança, como as que a gente está vivendo hoje. Só que rever a Griselda é constatar que ela foi precursora do empoderamento, abriu um caminho para a libertação das mulheres.”

Na novela, Griselda também é mãe de Maria Amália, interpretada por Sophie Charlotte. “Essa menina é uma coisa linda, talentosa, e aliás não é menina. É mulher, é mãe.” O que nos leva de volta a Todas as Mulheres do Mundo, em que Sophie faz Maria Alice, a personagem que imortalizou Leila Diniz no cinema. “O Domingos era um daqueles homens de alma feminina, que entendia as mulheres. O Emílio (Dantas), que faz o alter ego dele na minissérie, também. Emílio é um doce, um homem que seria incapaz de fazer mal a uma mulher.” Justamente. Em tempos de confinamento, com as famílias isoladas dentro de casa, a violência doméstica recrudesceu. “É tão importante falar de afeto, como fazia o Domingos e faz o Jorge (Furtado, autor da minissérie). O mundo está embrutecido, mas esse é o momento de se repensar. Está havendo muita solidariedade. A vida está dando uma chance pra gente. Afeto, delicadeza. Quem sabe, né?”

E o que Lília está fazendo, confinada em casa pela pandemia? “Não sou de botar a mão na terra, mas tenho jardim, e gosto muito que cuidem dele. Moro no Jardim Botânico (Rio), junto a uma casa que ocupa um quarteirão. Vejo as árvores, e são tão bonitas. Me dão a sensação de estar integrada à natureza. É muito bom nesse momento. Tenho trabalhado no desenvolvimento de projetos, lido peças, mas não literatura. Ler livros, para mim, é uma atividade solitária, exige concentração e a gente está junto em casa, compartilhando tudo. Tenho visto mais filmes. Não havia visto os filmes do Oscar e me atualizei.” E…? “Gostei muito do Parasita, mas gostei mais ainda do Jojo Rabbit. Que filme!”

Falar desses filmes é falar de seus diretores – Bong Joon-ho, Taika Waititi. E que tal Patrícia Pedrosa, a diretora da minissérie Todas as Mulheres do Mundo? “Conheci a Patrícia como assistente. Era miudinha, muito bonita e aí a Patrícia foi crescendo na profissão, conquistando seu espaço e hoje é uma diretora madura, reconhecida. Tem pontos de vista que discute com a gente, mas nunca dando ordens. Ela discute a cena, corrige o que acha que não está bem e, quando termina, todo mundo tem certeza que deu o seu melhor.” Admite que está cheia de expectativa, e explica. “O trabalho foi feito com muita dedicação. Espero, sinceramente, que chegue às pessoas nesse momento especial.”

Sobre Domingos: “A gente se conhecia, claro, ele ia sempre às minhas peças, eu às dele, mas teve um momento que me marcou. Fui à leitura de uma peça que ele criou a partir de cartas que eram endereçadas a uma revista e respondidas por meu analista. Inclusive foi o analista que me chamou. Cheguei lá e o Domingos fazia todas as vozes, todos os papéis. O que era aquele homem que parecia falar em nome de todo mundo? Que entendia todas as dores, que tinha tanta compreensão dos outros? Domingos era gênio. A palavra banalizou, mas ele era.”

Mesmo apostando no sucesso, Lília sabe que toda criação carrega um elemento imponderável. Antes de gravar Todas as Mulheres, havia feito a novela de Aguinaldo Silva, O Sétimo Guardião. “Todo mundo se empenhou, era uma equipe com gente muito boa, de grande talento, mas não aconteceu. Ficou muito abaixo da expectativa. Fico feliz com a repercussão que Fina Estampa está tendo. Pelo Aguinaldo, por mim, por todos nós. As pessoas comentam nas redes. A Griselda está sempre nos impulsionando a ser melhores. E eu, como público, estou adorando.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
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