Trilogia premiada de N.K. Jemisin é publicada no Brasil

De Redação Estadão | 5 de janeiro de 2020 | 07:55

A carreira da escritora americana N.K. Jemisin passou por uma rápida ascensão quando ela se tornou a primeira mulher negra a vencer o Hugo de melhor romance, principal prêmio da literatura fantástica, em 2016. Ela se tornaria nos anos subsequentes a primeira pessoa, independente de gênero ou etnia, a conquistar o Hugo três vezes seguidas com sua trilogia A Terra Partida, algo inédito nos mais de 60 anos do prêmio.

Publicados entre 2017 e 2019 no Brasil, os livros da saga – A Quinta Estação, O Portão do Obelisco e O Céu de Pedra – se passam em um planeta fictício com apenas um grande continente, chamado Quietude. A despeito do nome, o local é alvo de erupções vulcânicas, terremotos e catástrofes tectônicas com uma frequência assustadora, tanto que toda a cultura da Quietude se desenvolveu em torno da sobrevivência. A construção desse mundo e a descrição desses costumes por Jemisin é de um detalhismo que remete à riqueza das sagas de autores como Frank Herbert (Duna) e J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis). A diferença é que Jemisin tende a conceder protagonismo em suas histórias a personagens dos mais variados tons de pele, orientações sexuais, idades e características, não se atendo apenas aos estereótipos que a literatura de gênero solidificou por décadas.

“Sou uma mulher negra de meia-idade. Queria ler uma história com a qual eu me identificasse”, afirmou Jemisin em entrevista por telefone ao jornal O Estado de S. Paulo. “Como escritora, eu gostaria de ver personagens que eu ainda não havia visto antes, histórias contadas de perspectivas originais. Eu vejo predominantemente homens brancos jovens, às vezes não tão jovens, como protagonistas de muitas histórias. Não há problema nisso, eu posso lê-las. Mas tenho a habilidade de escrever algo diferente, então foi o que eu fiz.”

A protagonista de A Terra Partida é Essun, uma mulher fisicamente parecida com Jemisin, com a diferença de ser uma “orogene”. Ou seja, ela detém dons de manipular elementos da natureza – habilidade útil para deter terremotos e outros cataclismas, mas que a torna alvo do preconceito dos “quietos”, a maioria da população, que não tem poderes especiais e teme os orogenes. Essun tem um nebuloso passado a esconder e vive em um vilarejo diminuto, sem revelar suas capacidades a ninguém, nem mesmo ao seu marido, Jija.

Um dos temas que Jemisin explora ao longo da trama é a coexistência de amor e ódio. No início do primeiro livro, quando uma catástrofe ambiental de grandes proporções (conhecida nesse mundo como “Quinta Estação”) coloca em risco o vilarejo, Jija descobre a orogenia de seus familiares – e, em um trágico acesso de raiva, mata seu filho Uche. “O motivo pelo qual as pessoas são capazes de provocar tanto sofrimento para seus próprios entes queridos é que ser da mesma família é conceder a alguém o poder de machucá-lo. É isso que, efetivamente, a família é. Nós não escolhemos nossa família, mas escolhemos se vamos levá-la conosco pelo resto de nossas vidas”, afirma a autora.

Além do drama familiar que se espalha pelos três livros, talvez a grande questão da obra é: por que sempre organizamos nossas vidas de modo a oprimir uma parcela da população? “Para uma sociedade construída com base na exploração, não existe ameaça maior do que não restar mais ninguém para oprimir”, ela escreve em certo ponto. A metáfora dos orogenes como minorias étnicas, religiosas ou sexuais fica clara, mas o fato de a Quietude ser obrigada a renascer das cinzas a cada Quinta Estação cria uma relação de interdependência e desprezo mútuo interessante entre orogenes e quietos. A determinada altura da saga, o leitor começa a ter pistas a respeito de civilizações extintas de muitos anos antes, e percebe que, mesmo com um nível tecnológico maior no passado, a humanidade sempre se apoiou na opressão de seus semelhantes para prosperar.

As personagens de Jemisin têm de lutar pela própria sobrevivência contra as forças da natureza, mas também têm de confrontar a discriminação de seus pares. Ao longo da trilogia, os motivos pelos quais o clima do planeta se tornou tão hostil são revelados, em uma metáfora ambiental. A saga se torna, então, a aventura de Essun não apenas para sobreviver, mas para tentar consertar o estrago feito pelos antepassados de sua civilização, ao mesmo tempo em que ela tenta recuperar sua família, fragmentada pela catástrofe – e nem sempre esses objetivos estão totalmente alinhados.

Apesar da visão pessimista em sua obra, Jemisin acredita na possibilidade de um mundo mais justo: “Acho que isso é contrário aos desejos das pessoas que lucram com a nossa organização social, eles não querem ver nada mudar. Mas acredito que somos capazes disso coletivamente. Já vimos sistemas de reconciliação e justiça pelo mundo, como a Comissão para a Verdade e Reconciliação na África do Sul, após o Apartheid. Vimos reparações e desculpas em outras partes do mundo, não nos EUA, para os povos indígenas que foram prejudicados. E então começamos a ver as pessoas que lucraram com esse sofrimento tentando fazer tudo de novo. É uma luta contínua, mas ainda acredito que seja possível.”

Para a autora, uma das maneiras pelas quais essa luta é empreendida, é por meio da literatura. Tanto que uma de suas personagens defende que, embora soldados possam salvar um vilarejo de uma Estação, foram os contadores de histórias que os fizeram sobreviver a sete dessas catástrofes graças a seus ensinamentos e sabedoria. Na vida real, Jemisin recebeu nos últimos anos um retorno dos leitores sobre como seus livros os ampararam durante tempos complicados: “Se as pessoas veem personagens sobrevivendo a circunstâncias muito piores que as delas, elas criam esperança com isso. Ajuda a verem que há uma forma de atravessar tempos difíceis e manter algo de si e de sua sociedade intacto. Acho que as pessoas realmente precisam disso”, afirma ela.

Depois do sucesso de seus romances, Jemisin foi convidada para escrever quadrinhos para a DC Comics, e criou a história Far Sector, com uma Lanterna Verde alternativa, ilustrada por Jamal Campbell. Apesar de dizer que não teve dificuldades para aprender a criar roteiros, ela reconhece: “Esse formato é muito diferente de tudo o que eu já havia escrito.”

Recentemente, Jemisin cancelou uma viagem ao Brasil por não se sentir segura para vir ao País graças ao noticiário nacional. Ela viria pesquisar para uma série nova de livros, The City We Became (A Cidade que nos Tornamos), que começará a ser publicada em março nos EUA. “É uma história sobre cidades que ganham vida e desenvolvem personalidades próprias. Cada cidade mencionada na trama tem um avatar humano que a representa, e São Paulo é uma personagem bastante significativa. É difícil para mim personificar São Paulo sem visitá-la”, lamenta ela. “Infelizmente decidi não viajar para o Brasil neste momento, porque no meu próprio país vejo pessoas com dificuldades de entrar e sair das fronteiras. Fiz o melhor que pude, espero que os paulistanos me perdoem.”

Pelo menos a partir de março, teremos um vislumbre da São Paulo imaginada por uma das mentes mais criativas da literatura fantástica contemporânea.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

André Cáceres
Estadao Conteudo
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