Tristão e suas viagens pelo velho mundo

De Redação Estadão | 11 de dezembro de 2020 | 08:00

A Jornada Tristão de Athayde, evento que ocorre desde 2015 para revisitar diversos aspectos do escritor, crítico literário e teólogo, terá em 2020 sua primeira edição inteiramente digital por conta da pandemia do novo coronavírus. O encontro virtual para homenagear Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, nesta sexta-feira, 11, às 19h, é organizado pelo neto do autor, Xikito Ferreira, e conta com a participação do sociólogo Alessandro Garcia da Silva e dos pesquisadores Guilherme Arduini e Leandro Garcia, além do próprio Xikito.

O evento, que já teve uma edição presencial em fevereiro, falando sobre educação e a importância das escolas para Alceu, agora se volta para outro aspecto da trajetória do autor: a importância das viagens para a sua formação. O sociólogo Alessandro, por exemplo, fala sobre o contato que Alceu teve com o filósofo francês Henri Bergson, e como essa relação moldou sua trajetória intelectual.

“O tema central do evento é a questão das viagens, não enquanto turismo, mas enquanto formação intelectual e espiritual”, explica o professor Leandro Garcia, pesquisador e especialista da obra do escritor. “No caso dele, que viajou para muitos lugares, algumas viagens tiveram esse caráter de formação intelectual e religiosa, ele que era um católico praticante. Algumas foram para santuários, locais de peregrinação.”

Garcia, que já publicou oito livros sobre Alceu, incluindo obras contendo a correspondência entre ele e outras figuras importantes da intelectualidade brasileira, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, se prepara para lançar um novo volume, desta vez com missivas trocadas entre Alceu e Murilo Mendes.

Durante suas pesquisas para esse livro no acervo do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (Caal), em Petrópolis, Garcia encontrou, em meio às 32 mil cartas, 75 mil livros e 2,5 mil fotos, duas peças inéditas da correspondência entre Alceu e Dom Lucas Moreira Neves, cardeal brasileiro e imortal da ABL que viveu no Vaticano e chegou a ser cotado para suceder ao Papa João Paulo II, mas morreu em 2002.

As cartas trocadas entre Lucas e Alceu datam de 1950, então o sacerdote ainda era seminarista na École Théologique Dominicaine de Saint-Maximin, no sul da França, já que não havia curso de teologia no Brasil. Na primeira carta, o então frei Lucas convida Alceu a conhecer o convento e a Basílica de Santa Maria Madalena, uma vez que o crítico literário iria participar, em maio de 1950, da assembleia inaugural da Unesco representando o Brasil. A segunda carta, mais próxima da data da viagem, detalha os arranjos logísticos feitos pelos seminaristas com a ajuda do Itamaraty, na figura do embaixador Roberto Assunção.

“Alceu aproveita a estada em Paris e vai conhecer o Convento dos Dominicanos. Aí seria a dimensão intelectual da viagem, porque aquele era um dos maiores centros medievais de estudo e pesquisa de teologia da França desde o fim do século 13. Nesse mesmo lugar, está a Basílica de Santa Maria Madalena, um dos mais antigos centros de peregrinação da França desde antes da Idade Média, no início do cristianismo, onde estão enterrados os restos mortais de Santa Maria Madalena”, explica o pesquisador.

Quando Alceu volta dessa viagem, publica um livro intitulado A Europa de Hoje, em que narra suas passagens pelo continente, incluindo dois ensaios sobre a visita ao convento e à basílica, que serão abordados no evento virtual.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

André Cáceres
Estadao Conteudo
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