Um líder que faz muita falta em tempos de crise

De Redação Estadão | 17 de abril de 2020 | 07:00

Quando Wagner Moura estreou o novo filme Sergio no Festival de Sundance, no final de janeiro, a epidemia do novo coronavírus ainda era uma ameaça que começava a dar as caras nas Américas, com tantos casos como os dedos de uma mão. Agora, três meses depois, quando o filme entra na Netflix – nesta sexta, 17 -, o vírus colocou o mundo em isolamento social e as respostas são bem mais escassas que as perguntas.

Mas o momento não deixa de ser interessante para contar a história do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello (1948-2003), Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, um homem que teve a história profissional marcada pela empatia, pela liderança firme e por uma preocupação genuína com as pessoas.

“Um filme é uma comunhão entre o que o realizador quis fazer e como o público o recebe no momento em que foi lançado”, reflete Wagner, por telefone, de Los Angeles. “Uma produção é a interação dela mesma com o público que a vê numa determinada situação. Nosso público será o de dentro de casa, acompanhando a pandemia, vendo o efeito das ações de lideranças globais. Espero que dentro desse contexto a figura de Sergio ilumine um pouco a situação. Ele era uma pessoa dos direitos humanos, acompanhou mais catástrofes e tragédias do que a maioria das pessoas, e sempre lidou com essas questões de maneiras muito elevadas.”

O filme se baseia no livro O Homem Que Queria Salvar o Mundo – Uma Biografia de Sergio Vieira de Mello, escrito pela diplomata americana Samantha Power. Dirigido por Greg Barker, que já havia produzido o documentário biográfico Sergio (2009) para a HBO, o longa é uma ficção que se concentra nos últimos anos de vida de Sergio, como o brasileiro era mais conhecido. Interpretado por Wagner Moura, o diplomata acaba se envolvendo afetivamente com a economista Carolina Larriera (Ana de Armas), que só em 2017 foi reconhecida pela Justiça brasileira como sua esposa.

O filme explora também o tempo que o diplomata passou como representante especial da Administração Transitória da ONU no Timor-Leste, entre 1999 e 2002, na qual foi bem-sucedido. Antes disso, ele já havia atuado com bons resultados em missões em países como Bangladesh, Chipre, Moçambique, Líbano e Camboja. Cotado para ser o sucessor de Kofi Annan como secretário-geral da ONU, Sergio aceitou com relutância a tarefa no Iraque, e encontrou muita resistência americana para o seu trabalho.

No filme, todos os figurantes usados nas cenas passadas no Iraque eram refugiados iraquianos ou sírios. Na Tailândia, onde foram filmadas as cenas que simulam o Timor Leste, cerca de 30 timorenses participaram. “Isso foi muito interessante”, diz Moura. “Na equipe de Sergio no filme, o pessoal da ONU, havia dois ou três atores iraquianos. Tem um discurso longo em que ele fala sobre a importância dos serviços da organização no Iraque, para que não fossem confundidos com a coalização americana, e quando fiz isso pela primeira vez, eles ficaram mexidos, tocados. Os figurantes do Timor Leste realmente o conheciam muito, pois ele foi figura central na história do país. Para eles, ele era muito forte e para nós também. Isso acrescenta uma originalidade ao filme.”

O atentado à bomba que matou o diplomata em 2003 foi reivindicado pela Al-Qaeda, que confirmou que o brasileiro era o principal alvo.
Greg Baker admite que sempre tinha visto o potencial da história para um filme de ficção. Por meio do produtor Daniel Dreifus, ele e Moura descobriram que estavam atrás do mesmo projeto, e decidiram juntar forças (Wagner Moura também é produtor do filme).

“No documentário, é difícil conhecer Sergio, porque ele não está lá”, explica Baker, por telefone. “O novo filme roda em torno da cabeça dele e explorar isso foi fascinante.” O diretor concorda que lideranças fazem muita falta no momento atual. “Seu propósito sempre foi a melhora na vida de pessoas comuns. Essa crise de agora pede por lideranças globais como Sergio, que infelizmente não existem, as lideranças globais mesmo da ONU têm sido muito fracas. Ele era sempre otimista, acreditava nas pessoas, acreditava que as pessoas conseguiriam resolver os maiores problemas do mundo… talvez esse seja um pensamento a que possamos nos agarrar agora.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Guilherme Sobota
Estadao Conteudo
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