Um novo mapa no mercado editorial

De Redação Estadão | 5 de novembro de 2020 | 08:00

Juntar os cacos. Recomeçar. O mercado editorial viveu tantos altos e baixos nos últimos anos, assistiu à ascensão e queda da Cultura e da Saraiva, entrou em recessão, fechou temporariamente livrarias para combater o coronavírus, fez campanha de financiamento coletivo para ajudar as independentes a passar por este momento e está voltando a respirar – e tendo agora a chance de fazer diferente.

Quem termina 2020 mais fortalecido, e investindo na ampliação do negócio, como a Livraria da Vila e a Leitura, está fazendo isso com mais cautela. Nada de lojas deficitárias abertas por muito tempo, tamanhos além de suas possibilidades ou grandes empréstimos para abrir novas unidades – alguns dos erros cometidos pelas duas redes que estão em recuperação judicial e à espera, nos próximos dias ou semanas, de definições que vão garantir, ou não, o seu futuro.

E a situação não está fácil para elas. A Cultura, que começou antes seu processo de recuperação judicial – ele foi homologado em abril de 2019 e o da Saraiva, em setembro -, enfrentou credores desconfiados em sua assembleia, que preferiram não aprovar seu novo plano, pavimentando, assim, o caminho para a falência. A rede de Pedro Herz recorreu e ganhou mais prazo, mas o cerco vai se fechando. O juiz responsável pela condução da recuperação cobra relatórios e diz que o descumprimento do plano já atinge, por exemplo, 84,7% dos créditos alimentares devidos aos credores trabalhistas. Para piorar, a Globo Livros entrou, individualmente, com o pedido de falência da Cultura porque ela não pagou por livros comprados depois do acordo de recuperação.

Já a Saraiva, que adiou duas vezes a assembleia com seus credores, deve divulgar um novo plano no dia 16 e uma assembleia deve ocorrer no dia 24. Se eles aceitarem, ela segue na luta. Se não aceitarem, fica na mesma situação crítica da Cultura.
A Saraiva tem 41 lojas – eram 84 há dois anos. E a Cultura, 14.

Apesar da crise e da pandemia, São Paulo ganha novas livrarias ainda em 2020

Quando a crise econômica começou a ser sentida pelo mercado editorial, Samuel Seibel deu um passo para trás. Diminuiu drasticamente o tamanho de suas lojas dos shoppings Cidade Jardim e JK Iguatemi, de cerca de 2.500 m² para 400 m², e do Higienópolis, de 800 m² para 500 m². Ele acredita no modelo de livraria mais compacta, e quando surgiu a oportunidade de abertura de mais três lojas, em espaços ainda menores, ele não pensou duas vezes. Em dezembro, a Livraria da Vila chega ao Shopping Eldorado e ao Park Shopping São Caetano. Em 2021, ao Anália Franco. As novas livrarias terão cerca de 200 m².

Com essas inaugurações, a Vila, que já é a maior em número de lojas na Capital, terá, no começo do próximo ano, 13 lojas – 9 aqui, essa de São Caetano e as de Guarulhos, Curitiba e Londrina. Num eventual desfecho desfavorável para a Cultura, ela deve herdar os clientes de Pedro Herz. Mas Seibel prefere não pensar nisso, trabalha no seu ritmo, de acordo com suas possibilidades. “O que procuramos é atuar com os pés no chão e ter um equilíbrio entre o controle e a ousadia. Um misto de cautela sem perder de vista as oportunidades”, diz o livreiro – que só no fim de 2019 lançou seu e-commerce. Enquanto prepara a expansão de sua rede, ele acompanha com apreensão as notícias sobre a possível taxação do livro e assiste a uma melhora no desempenho das vendas depois da reabertura.

Samuel Seibel prefere as lojas pequenas, mais fáceis de serem administradas, e gostaria de estar em cidades que não contam com livrarias. Por outro lado, Marcus Telles, sócio da rede mineira Leitura, não se preocupa com o tamanho e não tem medo das megastores – em 2021, deve inaugurar 12 delas. Ontem, com a abertura de uma unidade de 1.100 m² no Recife, ela chegou a 77 livrarias em 20 Estados. Vai fechar o ano com 79, já que ainda inaugura uma no Shopping Mooca e outra do Diamond Mall, em Belo Horizonte.

Com o enxugamento da Saraiva e a ousadia e estratégia de Telles, a Leitura se tornou a maior rede em número de lojas do País. Embora saiba que, na média, uma livraria nova se paga em seis anos, ele não mantém uma loja deficitária aberta por mais de dois anos, independentemente do investimento feito. Ele já chegou a suspender seu e-commerce por isso.

Marcus Telles não tem medo de que aconteça com sua empresa o que está acontecendo com a Cultura e a Saraiva. “Elas estavam dando prejuízo há muito tempo e acumularam muitas dívidas. A Leitura tem caixa positivo, com pouquíssimas dívidas e com capital aplicado superior a essas dívidas”, comenta – e conta que cerca de 90% do investimento é próprio. “Há mais de 20 anos, sempre fechamos no mínimo uma loja deficitária por ano. Em 2020, foram duas, mas estamos abrindo 9. Temos lucro líquido distribuído e parte dele reinvestida todos os anos, com exceção entre abril e agosto devido à covid-19. E mesmo com a pandemia mantivemos as contas em dia. Enquanto estivermos crescendo com lucro e saúde financeira, vamos manter nossos investimentos. Acreditamos nos livros e nas livrarias”, explica o livreiro. No momento, ele está em negociação com shoppings para instalar uma Leitura onde antes havia uma Saraiva e prevê mais 5 lojas em São Paulo para o ano que vem – hoje, são 7 na capital, contando a do Shopping Mooca, e 8 no interior.

Rui Campos, dono da Travessa, também tem novidades. Ao incorporar a casa vizinha à sua pequena loja da Rua dos Pinheiros, sua primeira livraria de rua paulistana vai dobrar de tamanho, ficando com 400 m² até o começo do ano.

Alexandre Martins Fontes, dono da Martins Fontes Paulista e da unidade da Dr. Vila Nova, acredita que dá para crescer sem precisar expandir. “Vamos continuar investindo muito nas duas livrarias e no site, mas não temos planos de abrir outras lojas. Não tenho vocação para administrar uma rede de livrarias. Estou muito otimista em relação ao nosso futuro. Sinto que temos ainda muito a crescer e a realizar”, comenta o livreiro. Ele diz torcer para que outras redes ocupem os espaços vagos na cidade, e destaca o surgimento das livrarias de bairro, como a Mandarina e a Livraria da Tarde. “Precisamos, desesperadamente, de mais livrarias”, conclui. Alexandre, aliás, é idealizador do projeto Retomada das Livrarias, que ajudou financeiramente 53 pequenas e médias lojas afetadas pela pandemia – Mandarina e Tarde entre elas.

Há um ano e três meses a Mandarina era instalada numa casinha de Pinheiros. As sócias Roberta Paixão e Daniela Amendola deram um novo passo e inauguraram na terça, 3, um ponto de venda no café e casa de eventos Marché de Fête, no mesmo bairro. Haverá 500 títulos lá, mas também será possível comprar pelo site, criado na pandemia, e retirar no local. “Vimos que esse modelo de livraria de rua dá muito certo. Elas são um ponto de encontro acolhedor, com um café gostoso e curadoria. Isso ajuda a criar uma clientela fiel e recorrente”, explica Roberta.

Mais ou menos na mesma época que a Mandarina era aberta na Ferreira de Araújo, Monica Carvalho Pereira entrava no ramo e inaugurava a Livraria da Tarde, na Cônego Eugênio Leite. A crise já tinha se instalado para a Cultura e para a Saraiva, mas as independentes começavam a renascer nos Estados Unidos – hoje há um movimento importante também na Inglaterra em defesa delas e contra a Amazon. “A pandemia assustou, mas sobrevivemos e aprendemos. Algumas editoras têm feito movimentos de apoio às livrarias independentes porque reconhecem o valor delas, que são a principal vitrine para expor e divulgar seus livros. Além disso, ganhamos novos clientes e afeto”, diz. Esse cuidado com o pequeno livreiro pode ser um dos legados da crise das varejistas e da pandemia, quando ficou evidente a necessidade de um ponto de venda físico para um novo livro ser descoberto.

“A chegada de novos empreendedores e de novas gerações tem fortalecido o mercado. Vemos várias livrarias de rua em São Paulo ocupando seu espaço e se fortalecendo apesar das dificuldades atuais”, comenta Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias, que estima haver 90 livrarias na cidade.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Maria Fernanda Rodrigues
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