Vemos o governo tentando buscar base de apoio no Congresso, diz economista da LCA

De Redação Estadão | 7 de outubro de 2020 | 12:46

O economista Fernando Sampaio, da LCA Consultores, avalia que, embora tenha melhorado a interlocução do governo Jair Bolsonaro com o Congresso e com os outros Poderes, a política ainda deverá ser foco de incerteza em 2021, o que pode impactar no processo de retomada econômica.

Para Sampaio, há uma “normalização do governo no sentido de buscar uma base sólida de apoio, de interromper o confronto com os outros Poderes”. “A incerteza diminuiu, mas não se pode dar de barato que está consolidado. O fiador do governo é o ‘Centrão’, e o ‘Centrão’ é oportunista, gosta de poder. Estava com a Dilma e quanto ela se enfraqueceu, desembarcou e foi governar junto com o Temer”, disse Sampaio, citando o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

De acordo com o analista da LCA, um eventual enfraquecimento do governo Bolsonaro pode subir o custo do apoio do “Centrão” ao presidente, o que tem potencial para dificultar a agenda de ajustes fiscais.

A economista Thaís Zara, também da LCA, diz que a indefinição sobre a reforma tributária também pode impactar a retomada em 2021, pois sinaliza mais incerteza para os investidores.

Na projeção da LCA, o IPCA de 2021 pode chegar a até 3,5%, “mas dificilmente vai ultrapassar a meta, de 3,75%”, afirmou Sampaio. As falas dos economistas ocorreram em evento sobre recuperação econômica organizado pela LCA e transmitido no YouTube.

EUA

Thaís Zara também afirmou hoje que o mercado se preocupa com uma eventual “onda azul” nos Estados Unidos por ocasião das eleições marcadas para novembro, em referência a uma possível vitória do democrata Joe Biden na corrida presidencial associada ao estabelecimento de uma maioria democrata no congresso americano.

“A principal preocupação hoje, se os democratas levarem as duas Casas, é que haja reversão das isenções tributárias feitas pelo governo Trump, o que prejudicaria as empresas”, resumiu Thaís.

Além de uma vitória democrata, a analista citou o impasse relacionado às medidas de estímulo fiscal nos Estados Unidos como um fator que pode ameaçar a retomada econômica, especialmente no primeiro trimestre de 2021.

“O presidente Trump acabou de sepultar a questão dos auxílios nos Estados Unidos, e isso é uma questão muito importante. Você vai ter uma população desassistida por algum período e isso pode acabar levando a uma segunda queda da economia no começo de 2021”, disse Thaís.

Vacina

A estratégia do governo brasileiro com relação a vacinação contra a covid-19 foi criticada pelo economista Fernando Sampaio na “live” da LCA. “Tem mais ou menos meia dúzia de vacinas que são as principais candidatas ao sucesso e o governo brasileiro apostou todas as fichas em uma só e o governo paulista apostou tudo em uma segunda. Há países que estão apostando em várias, porque isso é mais seguro”, afirmou o analista.

De acordo com ele, o Brasil vai ter que contar com a sorte de que as vacinas pré-compradas sejam realmente eficazes, uma vez que já há “pré-compras gigantescas mundo afora” das outras opções. Além disso, citou Sampaio, o País encomendou uma quantidade insuficiente para que toda a população seja vacinada em duas etapas, “o que é desejável, segundo os médicos”.

Cenário para 2021

A LCA Consultores espera que 2021 seja um ano em que a pandemia da covid-19 esteja sob controle, provavelmente com o avanço das vacinas. Além disso, a consultoria projeta melhora econômica sob os avanços da agenda de reformas e com o respeito ao teto de gastos. O resumo foi dado por Fernando Sampaio.

Segundo Sampaio, o cenário base para o ano que vem estima crescimento de 3,2% no Produto Interno Bruto (PIB), dólar a R$ 4,80, inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,2% e Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) em 4,4%. A taxa básica de juros, a Selic, deve terminar 2021 em 2,5%.

Neste ano, a casa projeta retração de 4,8% no PIB, com o dólar encerrando 2020 cotado a R$ 5,20. O IPCA deve acumular em 2,5% no ano, e o IGP-M deve subir 17,1%. A LCA espera que a taxa Selic termine o ano no patamar atual, de 2,0%, atingido em agosto deste ano. A LCA calcula que este cenário tenha 65% probabilidade de se efetivar.

Gregory Prudenciano e Cícero Cotrim
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