Vigilância indica ameaça que deve permear mandato

De Redação Estadão | 21 de janeiro de 2021 | 06:48

A posse de Joe Biden foi silenciosa, com o Congresso americano iluminado por céu azul e protegido por 25 mil homens da Guarda Nacional. Mas o democrata sabe que a paz foi temporária e a expansão da intolerância e da violência política em um país polarizado serão desafios para sua gestão. Em uma cidade sitiada, com mais soldados do que civis nos entornos da posse, Biden prometeu derrotar “extremistas políticos, o supremacismo branco e o terrorismo doméstico”.

O ataque ao Capitólio tornou urgente uma pauta que já era cara a Biden: a preocupação com os extremistas. O democrata decidiu concorrer à Casa Branca em 2017, quando viu neonazistas, supremacistas brancos e integrantes do Ku Klux Klan nas ruas de Charlottesville. “Era o ódio em marcha, a céu aberto. Na América”, disse, em outubro.

O mesmo cenário de onde o democrata discursou calmamente ontem foi palco da inimaginável invasão do Capitólio por extremistas apoiadores de Donald Trump que tentavam bloquear a sessão de confirmação da eleição do democrata duas semanas atrás. “Aqui estamos, alguns dias depois de uma turba amotinada pensar que poderia usar a violência para silenciar a vontade do povo, interromper o trabalho de nossa democracia e expulsar-nos deste solo sagrado. Isso não acontece. Nunca vai acontecer. Não hoje. Não amanhã. Jamais”, disse Biden na posse.

Ao menos desde 2019, especialistas têm alertado para a tendência crescente de grupos de extrema direita nacionalista pelo país. Durante seu mandato, Trump rejeitou condenar atos de supremacismo branco e inflamou extremistas com sua retórica polarizadora.

Sob temor, Washington viveu uma posse sem precedentes, com o National Mall vazio e a determinação de autoridades para que as pessoas ficassem em suas casas. Barreiras físicas como caminhões, blocos de concreto e cercas isolaram toda a região dos monumentos.

O esquema de segurança da posse é considerado inédito, mas comparado por especialistas à reação do governo americano após o ataque de 11 de setembro de 2001. A diferença é que, naquela ocasião, o inimigo era externo. Agora, a ameaça vem de dentro.

Americanos que tentavam se aproximar do Congresso para ver Joe Biden e Kamala Harris empossados, mal conseguiam enxergar a cúpula do prédio do Capitólio. A restrição de passagem foi estabelecida a quarteirões de distância do evento e em toda a região que abarca o centro da cidade, onde estão Casa Branca, Congresso, Suprema Corte e monumentos.

O corretor de imóveis Albert Elliott foi um dos eleitores de Biden que se frustrou ao não assistir a posse. A cerca de três quarteirões do Capitólio, o mais próximo que a barreira policial permitiu, ele circulava com uma bandeira com o emblema do movimento Black Lives Matter mesmo quando alguns flocos de neve dispersaram parte dos presentes.

“Não importa quão difícil foram as eleições, vamos transferir o poder pacificamente. Estou aqui para ver isso. Estou aqui, pois tenho o direito de estar aqui. É histórico ver a primeira mulher negra a chegar à Casa Branca”, afirmou Elliot, morador de Washington. “Estou frustrado. Não há razão para ter 20 mil soldados na capital. É culpa do presidente Trump e das pessoas que acreditam em suas mentiras, sua figura radical”, acrescentou.

O medo de um ataque possibilitado por algum radical infiltrado nas forças de segurança fez a inteligência americana revisar as fichas dos soldados enviados à capital e 12 homens da Guarda Nacional foram afastados.

O dia acabou sem protestos ou incidentes relevantes, mas o alerta máximo continua. A inteligência americana considera que atos violentos podem ocorrer nos dias após a posse e restrições de circulação devem continuar em vigor até o final de semana em Washington. Para o governo, o alerta continua mesmo quando a vigília na capital acabar.

Shows para um pequeno público

A posse de Joe Biden reuniu alguns grandes nomes da música americana, além de a poeta ativista Amanda Gorman, de 22 anos – a mais jovem a ser convidada para o evento desde que Robert Frost, então com 87 anos, iniciou a tradição democrata na cerimônia de John Kennedy (1961).

Lady Gaga cantou o hino nacional dos EUA. Gaga regularmente apareceu na campanha de Biden. Jennifer Lopez, tida como a artista latina mais influente na América do Norte, emendou um mashup com This Land is Your Land, de Woody Guthrie, America the Beautiful, de Ray Charles, e seu próprio sucesso Let’s Get Loud.

Garth Brooks, superstar country, um republicano que já vendeu mais discos que Elvis Presley, cantou Amazing Grace, um hino cristão.

Beatriz Bulla, correspondente, e Thaís Ferraz
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