Vítima de falésia em Pipa, Hugo trocou emprego de coordenador por vida nômade

De Redação Estadão | 20 de novembro de 2020 | 11:29

Hugo Mendes Pereira havia completado 32 anos no dia 15 de outubro e parecia não se arrepender da vida nômade que escolheu para si. No dia do aniversário, recebeu um convite para ser gerente no maior hotel da praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, e revelou sua felicidade pelo novo momento em uma rede social. Pouco mais de um mês depois, o desabamento de uma falésia interrompeu os sonhos dele, que morreu ao lado da esposa, a psicóloga Stela Souza, e do filho Sol, de apenas sete meses.

Eles morreram soterrados no final da manhã de terça-feira, 17, enquanto aproveitavam um dia de folga na praia. Banhistas relataram aos policiais civis e militares que atenderam à ocorrência que a família chegou a ser alertada do risco de permanecer naquele local por um fiscal da Prefeitura de Tibau do Sul, onde fica a praia de Pipa. Os corpos foram velados por familiares, amigos e admiradores do casal na pousada que eles administravam.

Depois de passar oito anos trabalhando e de chegar ao cargo de coordenador de projetos internacionais do grupo América Movel, que administra Claro, Embratel e Net, Hugo decidiu cair no mundo. Saiu de Jundiaí (SP), onde nasceu, e passou por países como Austrália e Cingapura – onde, sem dinheiro, precisou dormir no aeroporto. De volta ao Brasil, viajou por 24 Estados em uma Kombi personalizada que se tornou sua casa, ao lado da amada cachorra de estimação, Brisa. Tinha paixão por surfar e sua saga ganhou espaço em alguns programas de televisão como o Domingo Espetacular, da RecordTV.

Em cada cidade que desembarcava, Hugo procurava emprego. Lavou louças, fez faxina e, em momentos de dificuldade, ficou sem almoçar e dormiu na rua. Mas continuou seguindo viagem acreditando que os dias seriam melhores. A aproximação com o ramo hoteleiro começou em Búzios, no Rio, onde foi gerente de um hostel.

Em 2018, ele sofreu um baque com a morte de Brisa. Em uma rede social, Hugo lembrou que foi a jornada com Brisa que o levou até a praia da Pipa, onde se radicou. Ao lado de Stela, nascida em Natal, ele administrava a pousada Morada da Brisa, assim chamada em homenagem à cachorrinha, com área de camping. Na última temporada, 521 pessoas de 17 países passaram por lá. O espaço ainda oferecia terapias holísticas. O local estava fechado por causa da pandemia e o casal planejava uma reabertura em dezembro.

Antes de receber o convite para o novo emprego, Hugo se equilibrava entre gerenciar a Morada da Brisa e passava as madrugadas trabalhando como auditor de um hotel 5 estrelas seis dias por semana. Estava cansado. “Já eram quase dois anos dormindo pouco e agora com filho pequeno estava punk”, revelou no Facebook.

Nas redes sociais, Hugo agradecia a Deus pela vida que levava ao lado da família, postava fotos com a mulher e o filho e mostrava seu amor pelos animais, especialmente os cavalos. Na Morada da Brisa havia uma criação de tartarugas. Macacos, pássaros e grilos também faziam parte do ambiente. Se não fosse a morte trágica de Hugo, ele poderia perfeitamente ser o personagem de uma das mais célebres frases do poeta russo Vladimir Maiakovski .”Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.

Renato Vieira
Estadao Conteudo
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