Vitória da ciência

De Redação Estadão | 25 de maio de 2020 | 07:25

A luta contra o novo coronavírus já apresenta sinais esperançosos: a primeira rodada de testes em humanos de uma possível vacina contra a covid-19 mostrou resultados preliminares animadores. Trata-se do prenúncio de mais uma vitória da ciência, em especial da medicina – historicamente, em momentos em que a espécie humana é ameaçada por uma pandemia, avanços científicos são decisivos para a manutenção da sobrevivência da população.

Foi o que aconteceu em 1918, quando surgiu um vírus influenza – provavelmente nos Estados Unidos – que se espalhou pelo mundo e, antes de desaparecer em 1920, mataria mais pessoas do que qualquer outro surto de doença na história da humanidade. Batizado de gripe espanhola, o surto testou os limites da ciência no combate a um inimigo invisível, capaz de se propagar em uma velocidade vertiginosa entre os humanos.

“A estimativa mais baixa das fatalidades dessa pandemia em todo o mundo é de 21 milhões de pessoas, em um mundo com menos de um terço da população atual. Mas epidemiologistas de hoje estimam que a gripe provavelmente causou ao menos 50 milhões de mortes em todo o mundo e, possivelmente, até cem milhões”, atesta o historiador americano John M. Barry, autor de A Grande Gripe, obra lançada agora pela Intrínseca e que se tornou referência sobre a gripe espanhola.

Barry é professor da Escola de Saúde Pública e Medicina Tropical da Universidade de Tulane. Após a publicação de seu livro em 2004, ele atuou em várias entidades governamentais de resposta a pandemias e aconselhou as administrações George W. Bush e Barack Obama. O avanço desmesurado do coronavírus nos últimos meses tornou-o inesperadamente um ponto de referência para, a partir de fatos históricos, oferecer explicações sobre o que se passa hoje.

Segundo ele, a pandemia da gripe que eclodiu em 1918 foi o primeiro embate de vulto entre a natureza e a ciência moderna. “Foi o primeiro grande choque entre uma força natural e uma sociedade com indivíduos que se recusavam a se submeter a essa força ou a simplesmente implorar por salvação através de uma intervenção divina – indivíduos determinados a confrontar essa força diretamente, com uma tecnologia em desenvolvimento e suas mentes”, escreve ele.

E, se o avanço hoje do número de óbitos provocados pela covid-19 impressiona, a cifra provocada pela gripe espanhola foi ainda mais assustadora. Segundo Barry, embora a pandemia tenha se prolongado por dois anos, talvez dois terços das mortes tenham ocorrido em um período de 24 semanas, e mais da metade dessas mortes se deu em menos tempo, de meados de setembro a início de dezembro de 1918. “A gripe matou mais pessoas em um ano do que a peste bubônica da Idade Média em um século; matou mais pessoas em 24 semanas do que a aids em 24 anos”, escreve.

Além do desconhecimento da ciência diante de um inimigo avassalador, o historiador vê um decisivo e preocupante ponto em comum entre a pandemia atual e a do período 1918/20: “Os países no combate à epidemia tentaram minimizar a ameaça, preocupados de que a verdade afetaria o moral da população e os esforços de guerra”, diz ele ao Estadão, em entrevista por e-mail. “A lição, sempre, é contar a verdade. Em 1918, aqueles governos que não disseram a verdade prejudicaram seus cidadãos de duas maneiras. Em primeiro lugar, as pessoas poderiam se proteger e, pelo contrário, se expuseram ao vírus e morreram. Em segundo lugar, as declarações enganosas e mentiras flagrantes foram contraproducentes.”

Barry afirma que o vírus em 1918 foi muito mais letal do que a covid-19. “As pessoas morriam em 24 horas, às vezes com sintomas terríveis, incluindo sangramento do nariz, da boca, olhos e ouvidos. Muito rapidamente a população se deu conta de que as autoridades estavam mentindo. Como resultado, os cidadãos sabiam que não podiam confiar em ninguém, que eram deixados por sua própria conta e risco, cada família tendo de cuidar de si mesma.”

Segundo o historiador, a maneira como o vírus se transmite é idêntico e a patologia é incrivelmente similar, não só na maneira como ele mata – com frequência por meio de uma “tempestade de citocinas” -, mas também pelo fato de os dois vírus infectarem muitos órgãos fora do sistema respiratório. “As principais diferenças são que, em 1918, a pandemia foi muito mais virulenta e mais letal e a covid-19 é muito mais contagiosa e temporal. A gripe influenza se propaga pelo corpo e pela comunidade muito mais rápido do que a covid-19.”

A situação, felizmente, é diferente hoje, graças, principalmente, aos avanços tecnológicos. Além da rápida conscientização difundida por alguns países, novos hábitos surgiram recentemente. Assim, a permanência do vírus vai depender do quão rápido surgir uma vacina e o quão eficaz ela será.

“Foi registrado um grande salto da ciência após a pandemia de 1918 e estamos observando isso nesse momento. Normalmente competitivas, as pessoas vêm compartilhando informação, os jovens se veem motivados a entender a ciência – ao menos esse legado bom será deixado pela pandemia”, comenta John Barry.

Em seu livro, ele parte da história de médicos desbravadores (como Paul Lewis, que morreu no Brasil, em 1929, quando pesquisava a febre amarela) para detalhar o salto evolutivo conquistado pela medicina, especialmente nos Estados Unidos, onde o conhecimento deixou de ser apenas empírico para se engrandecer a partir de experiências, cuja sucessão de erros e acertos trouxe o necessário progresso. Isso se tornou evidente durante a pandemia da gripe espanhola.

“A história do vírus influenza de 1918 não é simplesmente o caos, a morte e a desolação da sociedade em uma guerra contra a natureza, sobreposta a uma guerra contra outra sociedade humana”, escreve. “É também uma história de ciência, de descoberta, de como se pensa e de que modo mudar a maneira como se pensa, de como, em meio ao caos quase absoluto, alguns homens buscaram a frieza da contemplação, a calma absoluta que precede não a filosofia e, sim, a ação severa e determinada.”

A GRANDE GRIPE
Autor: John M. Barry
Tradução: Alexandre Raposo e outros Ed.: Intrínseca (608 págs.,
R$ 39,90 e-book)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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