Votação de Tatto simboliza revés do PT

De Redação Estadão | 17 de novembro de 2020 | 08:01

O PT sofreu importante derrota no primeiro turno das eleições municipais e o tamanho do revés político pode ser medido pela derrocada em São Paulo, cidade que o partido governou três vezes. Na “joia da coroa”, o maior partido de esquerda virou nanico. O candidato do PT à Prefeitura, Jilmar Tatto, não apenas não conseguiu passar para a segunda rodada da disputa como ficou em sexto lugar, com votação muito distante da registrada por Guilherme Boulos, do PSOL, o novo desafiante do prefeito Bruno Covas (PSDB).

Tatto anunciou o apoio a Boulos pelo Twitter. “Acabei de ligar para @GuilhermeBoulos, a quem tenho como um irmão mais novo”, escreveu ele. “Desejei sorte e disse que ele pode contar comigo e com a nossa valente militância para virar o jogo em São Paulo”.
O balanço do desempenho do PT será feito hoje, em reunião do Diretório Nacional, por videoconferência. O Estadão apurou que dirigentes pretendem cobrar responsabilidades pelo infortúnio de Tatto.

Aos 40 anos, o PT vive uma crise sem precedentes. Após perder aproximadamente 400 prefeituras nas eleições de 2016, incluindo São Paulo – que naquele ano passou para o comando do PSDB -, o partido apostava na disputa deste ano para se reposicionar no jogo político, mas não conseguiu se recuperar.

A estratégia definida pela cúpula petista previa a nacionalização da disputa, o enfrentamento ao presidente Jair Bolsonaro e a defesa da retomada dos direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A onda bolsonarista de 2018 não se repetiu nessa campanha, mas o PT também não tirou os dividendos esperados das fragilidades no campo da extrema-direita. A conquista de prefeituras estratégicas sempre foi vista pelo comando da legenda como fundamental para a disputa presidencial de 2022.

Com essa avaliação, o PT lançou 1.234 candidatos a prefeito – um crescimento de 27,09% em relação aos 971 nomes apresentados em 2016. Deste total, 20 encabeçavam chapas para capitais. Conseguiu passar para o segundo turno no Recife, com Marília Arraes, e em Vitória, com João Coser. Em Porto Alegre, o PT tem o vice de Manuela DÁvila (PCdoB), que vai concorrer à nova etapa da disputa, no dia 29.

O Nordeste, porém, não é mais um celeiro de votos do PT. Candidatos petistas em Salvador, Fortaleza, Natal e Teresina – capitais de Estados governados pela sigla – não tiveram bom desempenho nas urnas.

Com mais votos agora do que aqueles obtidos na eleição presidencial de 2018, Guilherme Boulos, por sua vez, é visto por muitos políticos de esquerda como a imagem do que era o PT antes da Lava Jato, do impeachment da presidente Dilma Rousseff e da prisão de Lula. Além disso, a vice de Boulos é a deputada Luiza Erundina, uma ex-petista, que foi prefeita de 1989 a 1992.

Apelo

Embora recentemente a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, tenha apelado para Tatto desistir da disputa e apoiar Boulos, o candidato se recusou. O lançamento de Tatto para a sucessão de Covas, porém, foi defendido por Gleisi e pelo próprio Lula, apesar da enxurrada de críticas, depois que o ex-prefeito Fernando Haddad se recusou a entrar no páreo. A candidatura de Tatto causou um racha no partido.

“Ninguém poderia dizer o que ele deveria fazer. Era uma coisa dele”, afirmou Lula, ontem, em São Bernardo do Campo, onde votou. “O candidato disse: “Eu vou continuar candidato. Isso era somente ele que poderia falar. Eu acho que foi uma atitude correta dela (Gleisi), de procurar o partido para discutir isso. E foi uma atitude soberana dele dizer que não iria retirar a candidatura”, completou. Lula observou que “figuras importantes do partido” fizeram documento de adesão a Boulos bem antes de a campanha começar. “Nós temos que respeitar porque as pessoas são livres para escolher candidatos”.

Desde 1992, o PT só havia ficado fora do segundo turno na capital paulista na eleição de 2016, quando João Doria (PSDB) venceu Haddad. À época, o declínio do PT foi expressivo, mas vinha na esteira do impeachment de Dilma e de uma sucessão de escândalos. A derrota em São Paulo, agora, é sinal de que o PT não apenas não se reabilitou na maior cidade do País como está isolado. A chapa pura petista em São Paulo era chamada nos bastidores de “pão com pão” (Tatto com Carlos Zarattini de vice), sem aliados.

Ao votar, ontem, Tatto preferiu falar sobre os problemas do presidente. “Temos um grande derrotado nessa campanha, que é o Bolsonaro e seu candidato”, afirmou, numa referência a Celso Russomanno.

Vera Rosa e Tulio Kruse
Estadao Conteudo
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